06 junho 2017

Alanna: Os Sem-Pele - Capítulo 9: De Sem-Peles e Fugas

O toque gelado da morte no espírito de Jaguar fez com que eu me arrepiasse, como sempre. Dei boas-vindas ao espírito quando ele se acomodou em meu corpo, nossas sensações passando a serem compartilhadas, incluindo pensamentos superficiais. Jaguar sentiu-se sobrecarregado pela quantidade de sensações, algo que eu esperava, considerando o tempo que se passara desde sua morte, e fechou nossos olhos com força enquanto apoiava os dois cotovelos no chão frio e empoeirado e fazendo o mesmo com os joelhos. Nosso estômago se revolvia de forma não muito amigável, apesar de estar totalmente vazio.

— Respire com calma. Devagar. Você morreu há muito tempo, desacostumou com essas sensações. — orientei à Jaguar, tentando acalmar o espírito.

Foram apenas alguns segundos que ele precisou. Ao fim desses segundos, ele se levantou e deu alguns passos firmes com meu corpo pela câmara, antes de parar encarando a escada, única entrada e saída.

Os Filhotes de Tzitzimime estão avançando. Vamos ter de lutar para sair. — ele falou usando minha boca, nossas vozes misturadas ecoando na sala. Através dos pensamentos superficiais, mostrei a arma no cós da calça e como ela funcionava. Jaguar bufou de leve. — Isso não mata esses seres. — uma pausa, e Jaguar colocou o pé no primeiro degrau. — Se tivesse como eu usar minhas armas...

Mal falou, continuamos a subir.

Por um momento pensei em ficar irritada com a declaração, até lembrar de Abel descrevendo como nada adiantara contra os Sem-Pele. Só vou chama-los de Tzitzimime quando tiver certeza de que são Tzitzimime.

Por que quer suas armas? — assumi o controle da minha boca para perguntar, Jaguar controlando minhas pernas para subir a escadaria. Era mais fácil do que conversar mentalmente, já que eu não o conhecia tão bem quanto conhecera Helena. Senti meu estômago se revirar ao notar a proximidade dos espíritos e dos gritos dos seres estranhos.

— Tzitzimime, mesmo os filhotes, existem ao mesmo tempo em todas as frequências, mas só são vulneráveis a objetos das frequências espirituais. Como as minhas armas. — Jaguar controlou minha boca para responder, a aspereza das paredes viajando através das pontas dos dedos que ele mantinha encostados à pedra. Argh. Tá parecendo mesmo coisa de Tzitzimime, essa coisa de existir em todas as frequências. Os tais são uma mistura bizarra de espíritos divinizados e seres transformados pela crença. Mesmo assim... Não lembro de ter lido sobre seus “filhotes” parecerem morto-vivos. É... Estranho. Será que a Stella Bianca nunca lidou com filhotes de Tzitzimime antes? Era o que mais fazia sentido. — Essa sua arma estranha, pelo que me mostrou, existe apenas na frequência material, então não faz sequer cócegas neles.

Tinha de ser algo que foi tirado da Oitava Unidade. Tinha de ser. E ainda por cima uma das coisas que mais foi ferrada de capturar, justamente por não ser nada direito e precisar de um processo todo próprio pra ser lidado.

Estou tão ferrada.



Depois de minha constatação de “estou tão ferrada”, eu e Jaguar ficamos em silêncio até termos praticamente subido toda a escadaria. Pouco antes de entrarmos na primeira câmara, onde eu encontrara o medalhão, senti calor se espalhar repentinamente por meu peito, como se uma tocha tivesse sido acesa à minha frente e então afundado através de minha pele até alcançar as costelas e o esterno, aquecendo, mas sem queimar. A sensação assustou a mim e ao espírito dentro de mim: ele parou com um pé em cada degrau e olhamos, sem briga por quem controlaria minha cabeça e pescoço, para baixo.

Surpreendentemente, o culpado não era o medalhão encontrado, mas sim o pingente do colar que eu ganhara de Melinda. A obsidiana brilhava fracamente, irradiando luz branca e quente, ofuscado de uma forma que parecia envolto em névoa. E uma nova porta se escancarou nas muralhas de minha mente, uma porta que não estava ali antes.

Havia um peso novo em meu corpo, que eu, Alanna, nunca conseguiria carregar, mas que Jaguar era capaz, e com tranquilidade. Ele ergueu meus braços e a armadura que o cobria quando eu o vira fora de meu corpo agora também me cobria, semitransparente e, apesar do peso estar ali, a pele nua de meus braços não sentia as peças de madeira e couro. Era estranho, difícil de descrever.

O chimalli estava preso com segurança no meu braço esquerdo, e o maquauhuitl, pendurado em minha cintura. Sem pensar muito, Jaguar segurou o punho da arma e a empunhou quase como uma espada de uma mão. Surpreendentemente, a sensação do cabo de madeira da arma contra a palma da minha mão era de solidez, e não de ausência como o resto da armadura.

Jaguar formou um sorriso satisfeito ao ter a arma em mãos, e então subiu os últimos degraus até a câmara.

Quando der, tenho de agradecer Melinda pelo presentinho. E perguntar porque ela não me falou sobre isso.



A primeira câmara estava uma bagunça; espíritos de guerreiros-jaguares e guerreiros-águias lutavam contra o que pareciam pessoas normais à primeira vista, mas que revelavam coisas não tão normais quando observávamos com mais atenção — os olhos mostravam uma inteligência estranha, esfomeada. Tive a impressão de que essa “fome” aumentou quando aqueles olhos estranhos pousaram em mim. Sem dúvida nenhuma porque estou viva.

Jaguar assumiu posição de luta, a mão segurando o maquauhuitl paralelo ao chão com firmeza, e posicionando o escudo à nossa frente no tempo exato para bloquear um golpe de um Sem-Pele; a peça de madeira decorada pareceu subitamente mais sólida quando atingida. Um soco, mais especificamente, que fez nossos pés arrastarem alguns centímetros para trás, mas não muito: Jaguar conseguiu firmá-los, usando a força que ele sem dúvida tinha quando vivo para isso e para, numa explosão de energia, empurrar o escudo repentinamente, derrubando o Sem-Pele. Sem perder tempo, Jaguar afundou o maquauhuitl na cabeça do não-vivo. O Sem-Pele parou de se mexer imediatamente.

Percebi pelos pensamentos superficiais que Jaguar queria continuar lutando até que não sobrassem Sem-Peles, mas meu corpo era mortal e tínhamos sido pegos desprevenidos, eu especialmente. Era melhor não abusar e sair dali, o mais rápido possível, e viva.

— Jaguar... Vamos. Teremos outra oportunidade de acabar com eles, te garanto. — resmunguei em minha cabeça para o espírito. Tive a impressão de que um rosnado de raiva veio da minha garganta, mas apesar disso, ele fez o que pedi, aparentemente entendendo que se por alguma razão ele fosse chutado de meu corpo, eu estaria à mercê dos tais Sem-Pele. Percebi em seus pensamentos superficiais que ele não queria isso.

Pulando o corpo diante de nós, Jaguar fez minhas pernas andarem pelo corredor num ritmo incansável, em busca da saída.

Cada Sem-Pele que não estava ocupado tentou nos parar ou ao menos nos seguir, mas Jaguar estourava seus miolos com o maquauhuitl sempre que chegavam muito perto, sem parar ou hesitar. Definitivamente um guerreiro mortífero quando vivo e continuava depois de morto. Sorte minha.

Ou não. Provavelmente vou precisar de um dia inteiro de sono e comer uns quatro quilos de carne para o meu corpo recuperar tudo que ele está gastando.

Quando finalmente saímos do escuro das ruínas para o sol de meio de tarde da floresta, encontramos Abel caído no chão, um pouco de sangue na cabeça em meio ao cabelo, mas vivo. Jaguar chutou-o na lateral o corpo sem um segundo pensamento, e virou nosso corpo para a entrada assim que o Bruxo Branco deu sinais de acordar.

Feche a porta! — berramos em conjunto, manejando a arma para manter os Sem-Pele longe do mexicano.

Alguns segundos depois, Abel estava ao nosso lado, meio zonzo, mas ágil para colocar uma barreira, ao menos temporariamente.

Ele precisou de cinco intermináveis minutos para isso; ouvir eu e Jaguar xingando a intervalos regulares de dez segundos provavelmente não ajudou na rapidez de Abel. Assim que a barreira estava no lugar, os Sem-Pele presos do outro lado, o Bruxo Branco puxou um dos corpos que Jaguar estraçalhara a cabeça sobre os ombros e liderou o caminho para o carro no que provavelmente era uma ótima tentativa de alcançar a velocidade da luz.



Abel manobrou o jipe para voltar por onde tínhamos vindo; só quando estávamos a uma boa distância, certos de que não estávamos sendo seguidos, pedi a Jaguar para se retirar.

A falta de hesitação dele em aceitar o pedido me surpreendeu pelos cinco minutos que antecederam meu sono pesado, consequência de toda a energia que a fuga e a luta tinham consumido.


Jaguar sentiu-se relaxar e meio que suspirar quando afinal viu o rosto da Shaman relaxar e cair para o lado e contra o encosto da cabeça, respirações longas e profundas atestando seu sono. Observou-a por alguns segundos, o rosto infantil lembrando-o... Ele não sabia, mas as feições infantis despertavam uma sensação de reconhecimento estranha.

Desviou o olhar para o que estava ao seu redor. O veículo onde estavam era estranho, e conforme seguiam pela estrada, mais a floresta mirrava, lentamente dando lugar à construções que ele não reconhecia. E as roupas, no rapaz e na Shaman e nas poucas pessoas que às vezes via andando ao longo da estrada, também eram desconhecidas. Quando tempo se passara desde quando ele morrera?