20 junho 2017

Caco de Vidro 1 - Terra de Vidro: À Qualquer Momento

“And you keep saying
That you don't want to live like this
But then you go on like you always do
And when I listen to all the foolish things you say
I just feel the need to walk away”

“E você continua dizendo
Que você não quer viver assim
Mas então você continua como você sempre faz
E quando eu ouço todas as coisas tolas que você diz
Eu apenas sinto a necessidade de me afastar”

(Whenever — Nemesea)

Empurrou a porta de madeira da estalagem, pisando na pedra cinza-grafite que revestia o chão. O metal do salto das botas ressoou a cada passo, atraindo a atenção dos outros frequentadores, o som de conversas e de canecas batendo na madeira diminuindo gradativamente até parar.

Caminhou diretamente na direção do balcão claro de goiabeira, se inclinando para apoiar os cotovelos na superfície, quase deitando sobre a peça devido aos seus um metro e oitenta; o corpete de couro tratado e liso em nada atrapalhou apesar da aparente rigidez, somente o metal que protegia a região dos seios incomodando um pouco ao pressioná-los contra as costelas. Não demorou para que o hospedeiro caminhasse em sua direção e parasse à sua frente, secando meticulosamente um copo de vidro; usava uma camisa cinza protegida por um avental branco com algumas manchas de bebida e comida, era mais gordo que musculoso, e a olhava de forma cautelosa.

— Olá, Zhuran. o homem deu uma pausa, olhando ao redor como se procurasse que algum cliente o chamasse urgentemente e o impedisse de ter de interagir com a mulher praticamente toda protegida por metal vermelho pôr do sol — o famoso vellum. Todos permaneceram em silêncio, olhando para dentro de seus copos e canecas, ignorando-o. Demorou um pouco em sua missão...

Asa suspirou, cansada. A grossa corrente de prata pendurada em seu tronco, aliada à sacola preenchida com roupas extras e argentumies suficientes para ela trocar por três aurumies que recebera por pelo menos resgatar o corpo do menino sequestrado e entregar a cabeça da Dama-da-Noite, pesavam de forma inimaginável, e a cada segundo pareciam pesar mais. Seu corpo ainda tinha um limite, mesmo com o duro treinamento e exercícios diários por ser uma Zhuran e com as vantagens que seu sangue Demoníaco proporcionava.

— Imprevistos. — franziu as sobrancelhas finas, pensando em tudo que ocorrera, especialmente sobre Sigried. — Algum problema com o meu quarto? Ou algum recado?

— Nenhum problema. Mantive a porta fechada e proibi meus funcionários de entrarem, mesmo para limpar, como você instruiu. — inclinou-se e remexeu um pouco embaixo do balcão, erguendo-se pouco depois. — Recado nenhum.

Balançou a cabeça, satisfeita. Sabia realmente que, além de Sigried, que entrara algumas horas atrás pela janela, mais ninguém afetara as simples barreiras de alarme que agitariam seu espírito; perguntara para passar a impressão de que realmente se importava: diminuía os riscos de um dia suas instruções serem desobedecidas naquela estalagem. E recados... Bem. Ela tinha de ir para a Fortaleza depois do que acontecera, mas a pressa em fazê-lo era inexistente.

Não estava ansiosa para ouvir um dos infindáveis sermões de Mestre Dell. Nem para se meter em alguma pesquisa ou qualquer coisa em que os estudiosos da ordem com certeza a envolveriam. Só Átria, os Primeiros Reflexos e os próprios Seres do Espelho para saberem o quanto esses estudiosos conseguiam ser insuportáveis durante suas investigações.

— Foi uma trezena cansativa. — endireitou-se, estralando o pescoço. — Daqui dois dias vou partir em direção à Fortaleza. A menos que eu saia do quarto ou chame alguém, não quero ser incomodada por esse período, por motivo algum. — procurou dar ao seu olhar um ar duro e inquestionável; o hospedeiro estremeceu momentaneamente.

— Claro, claro. — ele apressou-se em dizer. Asa sentiu vontade de rir, não sabendo se o que assustava o homem era o fato de ela ser uma Zhuran, ou ser uma descendente tão recente de Demônios, como as pupilas brancas declaravam. Se fosse devido à segunda opção, ela realmente estranharia, considerando o fato de Vidro ter prestado culto aos Seres do Espelho alguns milênios antes, como Riuma e Szan ainda faziam, se misturando inclusive com os Demônios. Ela apostava que o hospedeiro tinha algum antepassado Demônio em sua genealogia; a maioria dos vidrenses tinha.

— Obrigada.

E subiu a escada que se apoiava na parede ao lado do balcão, estralando os ombros e o pescoço enquanto andava, um alívio momentâneo se espalhando por seus músculos.




Antes, Asa achava que exigir suítes — muito mais caras por serem totalmente diferentes da cultura geral do reino — nas estalagens onde parava era um comportamento idiota que ela tinha, resquícios de seus primeiros seis anos em Riuma e das mordomias da Fortaleza, mas naquele momento, quando viu Sigried na forma que ela vira crescer no Espelho, sentado na cama, agradeceu aos Primeiros Reflexos por sua mania. Seria complicado levá-lo até as salas de banho, tendo de explicar a coleira em seu pescoço e correndo o risco de que, o que quer que acontecesse, chegasse aos ouvidos de algum outro membro da Ordem — como o responsável por Linuan, que lhe entregara a missão e a recompensa e perguntara mil vezes onde Sigried estava. Teria o triplo de problemas, se não mais.

Ela conseguira improvisar algo que escondesse o corpo magro e delineado por músculos com a capa que usara para se cobrir nas noites frias durante a perseguição à Dama-da-Noite e encontrara um lago dentro do próprio templo que livrou-o do grosso do sangue, mas não pudera fazer nada pelo cabelo e pela barba, não sem sabão e muito menos sem como desembaraçá-los.

Ao menos, ela não precisava se preocupar que os ferimentos que a habitante do Espelho provocara infeccionassem, nem que voltassem a sangrar, muito menos com os ossos quebrados: a habilidade sobrenatural de cura e resistência dos Lobisomens era absurda até mesmo para ela, apesar dos séculos que a “infecção” era transmitida somente pelo sangue de Lobisomens aos humanos que possuíam reflexo; teria tido problemas apenas se ele houvesse sido ferido com prata ou por um Lobo de Ferro.

Ainda assim, apesar dessa aptidão, no começo ela via lágrimas de dor nos olhos de Sigried; pelo sangue que ele tossia nas primeiras horas, Asa soube que pelo menos uma costela tinha quebrado e perfurado um dos pulmões. Só imaginar o quanto devia ter doido sentir a costela voltando ao lugar e saindo do órgão fez a Zhuran sentir tontura.

Não era à toa que ele uivara: pelo que se lembrava, ele nunca havia perfurado o pulmão.

E, mesmo assim, eram problemas a menos, o que fazia o seu cérebro agradecer, mesmo tendo se atrasado por ter de esperar os ossos voltarem ao lugar e começarem a se colar — algo que durou em torno de dois dias.

— Tome. — jogou as roupas extras que comprara na direção de Sigried, então deixando as próprias coisas em cima da cama. — Tome um bom banho. — fitou os olhos azuis-claros de um tom de gelo, notando o Lobisomem se mexer, incomodado com a total atenção repentina. — Depois vou fazer a sua barba e cortar o seu cabelo.

Asa olhou de novo para a cama, tirando a corrente de seu corpo e deixando-a cair pesadamente no chão, sentindo as costas e o ombro agradecerem imediatamente. Quando percebeu que Sigried ainda estava sentado, olhando-a por entre as mechas negras, girou os olhos com enfado.

— O que está esperando?

Bastou indagar para o rapaz se levantar e andar na direção do banheiro anexo, levando as roupas entregues, o passo leve e um tanto ausente, como se ainda não entendesse onde estava ou não sentisse direito o chão abaixo de seus pés, como tinha sido desde que a fera fora para o Espelho.

Asa — e qualquer um que pudesse caminhar pelo Espelho por algum tempo — entendia muito bem o que ele passava.

Aqueles que escapavam com vida do Espelho ficavam um tempo aproximado daquele que passaram na dimensão com a sensação de surrealidade que tinham no lugar entorpecendo-os de modo estranho: o cérebro parecia não aceitar totalmente os estímulos recebidos e, embora decifrasse todos corretamente, parecia não acreditar.

Considerando que o corpo humano de Sigried passara em torno de dez anos no Espelho, levaria algo próximo desse tempo para seus neurônios acreditarem que ele estava — novamente — no mundo físico, em Rosean. Em teoria. Ela não sabia de ninguém que passara mais de um mês lá e retornara vivo. Teria de esperar para ver.

Asa suspirou — talvez pela vigésima vez no dia — com aquelas conclusões. Era um estado perigoso. Dor, frio, calor, pressão e todo o mais que provocasse alguma sensação praticamente inexistia, ignorado. Por causa disso, Zhurans que entravam no Espelho eram praticamente obrigados a permanecerem quietos e longe de perigo quando voltavam pelo período de tempo que tinham caminhado na dimensão. Descumprir isso podia provocar que esses morressem e praticamente não sentirem. Torceu para que Sigried não ficasse daquele jeito por dez anos. Os dois ficariam loucos.

A mulher afastou os pensamentos pessimistas e, em certa medida, realistas, e puxou com o pé a alça da mochila encantada que guardara debaixo da cama, usando seu fraco controle mental para erguê-la e colocá-la em cima do colchão.

Abriu o objeto e vasculhou o interior, até encontrar uma afiada faca de oricalco, bem cuidada e numa bainha de couro gasta. Puxou um pedaço de pano velho e desembainhou a lâmina, testando o fio no tecido; sorriu satisfeita quando a arma deslizou facilmente como se cortasse papel, dividindo o pano em dois. Voltou a encaixar a lâmina na bainha e guardou um dos pedaços de tecido na mochila.

Respirando fundo, a Zhuran fez um coque com as tranças, antes de começar a soltar as correias das manoplas e dos guarda-braços e as correntes que prendiam as ombreiras ao corpete e ao peitoral, deixando as peças de metal em cima da cama.

Alongou os braços; o alívio por sentir o peso fora de seus membros era indescritível.

Pretendia retirar o cinturão com os coldres das armas, o peitoral e o corpete, quando o rangido da porta do banheiro se abrindo atraiu sua atenção; virou somente o tronco, vendo Sigried atravessar o batente, usando somente as calças que ela jogara-lhe, algumas gotas de água escorrendo pelo torso marcado de cicatrizes e fios do líquido escorrendo do cabelo e da barba, que ele parecia ter desembaraçado — provavelmente com o pente que as suítes costumavam ter —, a coleira de prata marcada com runas pendendo folgada em seu pescoço de homem.

Asa franziu as sobrancelhas, acompanhando com os olhos o caminho que ele fez até a cama, onde deixou a camiseta e a capa, antes de virar-se e fixar os olhos claros nela do mesmo jeito que o Lobo fazia quando esperava alguma ordem que parecia não vir: uma mescla de ansiedade, medo, rebeldia, e vontade de fugir e de matar.

— Já? — a voz dela ecoou, as sobrancelhas se erguendo.

O Lobisomem deu de ombros, ainda se recusando a falar; Asa desconfiava que ele ainda não estava certo de que lembrava como falar e que talvez recordasse muito pouco dos anos transformado; enquanto tinham esperado os ossos dele se curarem, ela procurara explicar quem ela era e o que acontecera, mas dez anos de história não podiam ser resumidos em poucos dias. Zhurans nunca tinha lidado com um Lobisomem que voltara à forma humana, embora rumores dissessem que os Magos do Protetorado do Açougueiro já; ela estava totalmente no escuro a como agir.

— Venha aqui. — um banco se arrastou até a frente dela com o empurrão de energia espiritual. A mulher acompanhou, com o olhar, Sigried atravessar o quarto até o objeto.

O Lobisomem sentou-se no banco, com as costas retas e parecendo sentir uma mistura de tensão e relaxamento, como se estivesse preparado para sair correndo ou atacar ao menor sinal de perigo. Asa tirou a faca da bainha e pegou um punhado do cabelo preto do rapaz, a lâmina de oricalco cortando facilmente os fios. Mechas e mais mechas negras caíram e forraram o chão, até que o cabelo estava todo cortado mais ou menos na altura do queixo, com exceção das mais frontais, cortadas na altura das sobrancelhas. Agora, ela podia ver que ser um Lobisomem tinha garantido-lhe orelhas pontudas como as de um Demônio — orelhas que ela não herdara.

Pegou um punhado do sabão líquido na pia do banheiro, passando-o na base da barba até gerar uma quantidade razoável de espuma; ajoelhou-se para fica na altura dele, e pegou a faca novamente.

— Fique parado. — avisou, deslizando o fio de corte suavemente pela bochecha direita até quase alcançar o queixo, limpando a lâmina no tecido cortado mais cedo. Girou o punho da faca, invertendo o lado do fio, e então o passou do lado esquerdo do rosto. Ergueu-lhe o rosto com um dedo no queixo, expondo a garganta. — Não engula nem respire. — quando deixou de ouvir a respiração de Sigried, a lâmina passeou rente pela pele.

Ver e fazer aquilo fez Asa lembrar-se de sua infância em Riuma, vendo sua mãe fazer a barba do pai usando uma navalha de prata, nos Dias do Luto, antes da família ir aos templos do Espelho. A lembrança agridoce a fez engolir em seco.

— Pronto. Pode relaxar. — finalizou a barba, a pele morena ligeiramente avermelhada e irritada, mas sem nenhum corte. Asa ergueu-se, terminando de limpar a faca e guardando-a na bainha. — Lave o rosto com cuidado; a pele ainda está sensível.

Ela avisou, antes de se virar para suas coisas e continuar a retirar a armadura. Ouviu o som de água correndo enquanto soltava os elos de corrente que fechavam o corpete à frente do corpo, depois de tirar o peitoral. Tinha acabado de jogar a peça na cama quando ouviu seu nome numa voz grossa, não de forma totalmente natural, mas como se fosse resultado de anos de falta de uso. Foi instintivo sua cabeça de forma lenta e calculada virar para ver quem tinha chamado seu nome, mesmo só existindo uma opção, ao invés de apenas responder.

O Lobisomem estava logo atrás dela, a cinco passos de distância, os braços cruzados, parado, levemente encurvado, como se todo o tempo transformado o tivesse desacostumado a andar com a coluna ereta. O rosto carregava uma expressão estranha, como se não estivesse certo de que devia ter feito o que fez.

— Sigried? — sua voz, naquele momento instintivamente baixa, ecoou meio assustada, as pupilas claras rodeadas do cinza-negro se fixando nos olhos azuis claros. Sentiu um arrepio subir por sua coluna com a intensidade do olhar que o rapaz lhe dirigia.

Aquele olhar... Era igual à primeira vez que ela o vira, com dez anos, a primeira vez que encarou aquele azul-claro gélido, quase inumano.

Pura loucura.

Ensandecimento provocado por dor e pelo despedaçamento de tudo o que se conhece.

Ela lembrava muito bem que pouco depois ele quase lhe arrancara a perna direita acima dos joelhos — a cicatriz gigantesca, esbranquiçada contra a pele negra, acenava para ela toda vez que se despia, marcando onde um dia existira carne destroçada e sangue jorrando aos borbotões. Asa lembrava também de como seu coração martelara contra seus ouvidos naquele dia, quando ela pode sentir os dedos ferventes da gangrena e da morte tocarem o tornozelo direito, subindo lentamente, e do sentimento que preenchera seu espírito.

Medo. Aquele medo puro e selvagem, capaz de aguçar os sentidos e de te preparar para despedaçar o braço de alguém se isso significar viver. No caso, tinha lhe permitido se manter presa às costas do Lobisomem, segurando as patas dianteiras contra o peito e a corrente que mantinha a boca fechada, enquanto esperava socorro dos Zhurans responsáveis por ela.

Por cinco segundos, enquanto aquele olhar enlouquecido se fixou nela, Asa pode sentir esse mesmo medo lentamente abrindo caminho, cortando devagar, de dentro para fora, primeiro um dedo, depois mais um e mais outro. Por cinco segundos, seu corpo estava preparado para reagir ao menor sinal de ameaça para puxar a arma de energia espiritual e atirar o mais rápido que ela era capaz.

E então, Sigried baixou o olhar para as mechas negras caídas na madeira polida. Foi como se nuvens de tempestade tivessem se afastado, levadas pelo vento, deixando apenas o sol e um céu claro para trás.

— Quer que eu limpe? — piscou, surpresa. Imaginava que ele quisesse sentar na janela, sentindo o vento bater contra a pele e o calor do sol o aquecendo. Era o que ela gostava quando voltava do Espelho. Despertava uma emoção semelhante a alívio.

— Por que quer limpar? — ela revidou com outra pergunta. Sigried deu de ombros.

— Você precisa tomar um bom banho. — ela percebeu um leve franzir da pele ao redor das narinas do rapaz; teve vontade de rir: não era necessário um olfato sobrenatural para deduzir que ela precisava entrar debaixo da água. — Além disso, você mal dormiu nessa última trezena, e a corrente e a armadura não são leves. Você precisa descansar.

Asa trocou de pé, desconfortável com a preocupação exibida da parte dele. Com exceção das raras situações em que realizava alguma missão com Mestre Dell ou algum Zhuran de patente maior — ou seja, mais velho —, ninguém estava ao lado dela falando que precisava descansar.

A mulher inclinou a cabeça, olhando-o de forma intrigada.

— Por que de repente resolveu falar tanto? E por que tanta preocupação?

O Lobisomem deu de ombros novamente.

— Você, querendo ou não, cuidou de mim nos últimos dez anos, como me contou nos últimos treze dias... Agora posso retribuir. — Asa piscou quando achou ter visto um levíssimo alongamento dos lábios, que sumiu tão rápido quanto apareceu.

Suspirou, derrotada. Afinal, ele tinha razão: ela mal tinha dormido e a corrente e a armadura não eram leves.

Resolveu deixá-lo “vencer”. Mas só até dormir por doze horas seguidas e encontrar o bordel com Senhores-Salgueiros mais próximo.




Sigried observou a Zhuran tirar as grevas, os coxotes e as botas antes de pegar uma muda de roupas na mochila e se fechar no banheiro, os olhos azuis-claros seguindo os movimentos rápidos e econômicos, do jeito que alguém que crescera treinando para ser tecnicamente uma máquina rápida de matar se moveria, apesar do cansaço.

Contou lentamente até dez depois que a porta se fechou. Mesmo depois de dez anos, ela pouco mudara em seus hábitos: aquele era o tempo que ela levava para se despir e entrar debaixo do chuveiro. No instante em que chegou ao dez, seus ouvidos captaram o som da água caindo, e suspirou aliviado, recolhendo os fios de cabelo caídos no chão, colocando-os no pano que ela usara para limpar seu rosto; ao final, enrolou o tecido e jogou no lixo ao lado da porta.

Começou a mexer as mãos inquietamente, parando em frente à janela, os olhos deslizando primeiro pelas casas mais baixas e ruas que se entrecruzavam e então alcançando o início da grama verdejante até certo ponto, se tornando amarelada gradativamente, até, no ponto mais longínquo do horizonte, começar a ser substituída por terra, sem nenhuma muralha de pedra que as outras cidades do reino possuíam.

Aquela grama marcava o início das Planícies Vazias, não totalmente exploradas depois que surgiram, cheias de vestígios do tempo em que Vidro adorara os seres do Espelho e antes — exceto, é claro, as cerulines. Na região em que a grama começava a perder a vida, por vezes pequenos reflexos surgiam, como se a luz batesse em lascas de vidro e espelho.

Aquela era a barreira que protegia Linuan. Era aquela barreira, que existia desde que as primeiras fundações da cidade mineira tinham sido feitas, que impedia que os habitantes do Espelho com más-intenções adentrassem, independentemente de em qual dimensão estivessem. Ele lamentava que o menino que rastreara tivesse ultrapassado a barreira, mesmo sabendo que não devia tê-lo feito, mas logo procurou limpar a mente, não culpando o garoto; fazia o mesmo antes de se tornar um Lobisomem e entendia a sensação de liberdade que vinha acompanhada do ato.

Sigried preferia deixar seus olhos se perderem para lá das Planícies, na direção de onde tinham chegado, a pensar no garoto, no que sua nova condição provocava ou na sensação de irrealidade que o rodeava. Sua mente logo seguiu seus olhos, dando voltas e voltas pela terra nua e avermelhada, alcançando os pontos mais secos, em que a terra era tão compactada que parecia pedra, e indo além em sua mente, para lá de onde pedra e terra se misturavam e onde o templo em que sua atual condição fora permitida se encontrava.

Pronto.

Bastou pensar no templo para que seus olhos se desviassem das Planícies para suas mãos, apoiadas no batente da janela, a mente chegando segundos depois.

Ergueu a mão direita à frente do rosto, flexionando os dedos finos, com unhas um pouco compridas, pouco pelo, algumas marcas amareladas, quase douradas, contra a pele morena, percorrendo-os como raios, e tão, tão humanos. A outra mão logo também estava diante de seu rosto, sem os raios amarelados, mas ainda assim, humana demais. Estendeu-as, analisando o conjunto que faziam com os pulsos, os antebraços e os braços.

Pele morena, músculos delgados, ossos finos, cicatrizes claras de batalha, mas mais escuras que as marcas de raios que o cobriam do cotovelo para baixo no braço direito. Não apenas os membros dianteiros, mas o corpo inteiro.

Ele parecia tão frágil, tão exposto, tão fraco, quando comparado com a besta que tinha sido por dez anos. Mas ainda assim, sabia que era apenas aparentemente.

Naquela trezena, quando estavam rumo à Linuan, viu os ferimentos da luta contra a Dama-da-Noite se fecharem na mesma velocidade de quando transformado, e antes de começarem a viagem, sentira os ossos quebrados voltarem aos seus lugares e se colarem, e respirar ficara mais fácil quando o pulmão perfurado se reconstituíra. O veneno mortífero de um dos minúsculos escorpiões que habitavam as Planícies não fizera mais do que cócegas nele. Esmagar o crânio de uma gárgula continuava tão fácil quanto pisar numa barata.

Por vezes, sentia a fera à espreita num canto de sua mente. Mais fraca do que quando sua forma era a da besta, mas ainda assim, sussurrando, influenciando discretamente. Desde que assumira a forma humana. E minutos atrás ele quase perdera a batalha e atacara Asa — agora seria tão mais fácil, mesmo com a coleira... Naquele instante, ela estava com a guarda baixa, e não importava que logo depois ela estavisse tão atenta como quando era a besta que dominava, ainda assim seria fácil. E foi quando notou que a fera quase assumira o controle, e abençoou o instinto aguçado da mulher.

Ele continuava um Lobisomem, mas na pele de um humano, a parte louca e selvagem de ser do Espelho um pouco mais fraca que a parte racional de um nascido no mundo Físico, ao invés de levemente mais forte, como antes. Era, de certa forma, irritante: ficara tanto tempo na forma quadrúpede, desejando a forma que andava sobre duas pernas que ele via cada vez que encarava o próprio reflexo, e agora não conseguia se acostumar de novo com a forma diferenciada que aquele corpo tinha de se mover; além disso, não esperava ter de estar atento a besta que o rondava à cada segundo em sua mente. Teria de ter o triplo de cuidado e vigilância; na forma lupina, era mais fácil mantê-la controlada, mesmo que fosse mais forte.  Aparentemente, o enfraquecimento a deixara mais rebelde.

Bufou, cruzando os braços, irritado consigo mesmo. Pelo menos era capaz de falar, embora fosse estranho voltar a fazê-lo, com sua garganta ansiando por transformar as palavras que ele tentava dizer nos rosnados e uivos que ele não se permitira soltar quando na forma de fera.

Olhou de novo para além da barreira de Linuan. Asa acreditava que ele não se lembrava dos últimos dez anos. De certa forma, ele queria não lembrar de certas coisas: da dor da transformação que quase o matara, que sua primeira vítima fora um jovem de sua cidade com quem ele e seu irmão brincavam na infância, do sabor doce e férrico do sangue daquele humano, de que quase arrancara a perna da Zhuran, o cheiro de medo que a cobrira naquela vez, da dor que a Hrinma e a Sripati tinham causado ao unir o seu espírito e o de Asa... E tanto mais.

Por alguns segundos, se passou em sua mente a ideia de dizer-lhe que lembrava de tudo desde sua transformação, mas empurrou-a de lado pelo medo do que Asa faria. Por enquanto, ela tinha agido de forma apenas ligeiramente mais gentil ao que costumava— mas ainda como se ele continuasse sendo a besta agora no Espelho, o que, de certa forma, era verdade —, pensando em fazer o caminho mais longo possível rumo à Fortaleza. Se ela descobrisse que ele lembrava, podia mudar os planos e usar o caminho mais curto, pretendendo entregá-lo aos estudiosos Zhurans o mais cedo possível.

Ele não queria aquilo.

Precisava de mais tempo para entender sua nova situação, no que ela implicaria dali por diante em sua convivência com Asa... E descobrir o que exatamente acontecera com a mulher três anos atrás. Não sabia se sua condição era passageira ou permanente, mas a aproveitaria para resolver esse mistério que vinha atormentando-o.




A terceira lua, Átria, brilhava cheia, a maior das três, avermelhada como vellum, com anéis da mesma cor rodeando-a. Uma fatia da segunda, Asmara, estava à vista, com seu discreto brilho verde, e não existiam rastros da primeira, Fedra, a menor de todas de tons de azul. Sigried viu um sorriso esticar os lábios da Zhuran que estava parada diante da janela. Ela virou-se, se espreguiçando enquanto caminhava em direção à porta.

— Vou sair. Provavelmente demoro, mas ainda assim... Quer alguma coisa? — ela perguntou, a mão na maçaneta.

O Lobisomem pensou um pouco. Na hora do almoço, mais cedo, ela tinha trazido comida da cozinha da estalagem. Uma carne cozida que ele não identificou e que caíra como pedra em seu estômago, além de ter gosto de serragem. Estava claro: ou era influência do tempo que seu corpo passara no Espelho, como ela lhe explicara mais cedo, prevenindo-o para tomar cuidado, ou sua fisiologia tinha se alterado totalmente por ser um Lobisomem, o que parecia mais provável.

— Vamos tentar carne de Javali. O mais crua possível. — enrugou o nariz, lembrando que, de todos os animais que tinha devorado nos últimos dez anos, a carne levemente adocicada de javali era a que mais o agradara.

— Imaginei. — ela disse, um sorriso maior se abrindo em seus lábios, antes de sair do quarto.

Contou até vinte, andando lentamente até a janela, amarrando a capa que Asa lhe comprara sobre os ombros e observando a noite que cobria Linuan. Inclinou-se, analisando a rua e as janelas das casas ao redor da estalagem.

Quando chegou em vinte, apoiou todo o peso nos braços e impulsionou as pernas, saltando através da janela num único movimento, fluído e leve, girando e caindo com as mãos sustentando seu peso contra a pedra úmida e coberta de limo e musgos.

Uma expressão de certa surpresa passou por seu rosto quando conseguiu realizar o movimento sem provocar um acidente, considerando que ainda estava se acostumando ao corpo humano e que fazia uma trezena desde que quebrara pelo menos três costelas e a ulna direita. E sem comentários sobre como tudo ainda parecia irreal aos seus sentidos.

Endireitou-se, colocando o capuz e ajeitando a capa para esconder a coleira, as orelhas pontudas, as marcas no antebraço direito e as demais cicatrizes que o cobriam, começando a andar num passo silencioso e rápido.

Apesar de tudo, ele devia agradecer por aquele corpo. Era mais fácil passar despercebido no meio de uma cidade, sem precisar se aproveitar de cada sombra e fresta, embora ele ainda tivesse um pouco de dificuldade para coordenar perfeitamente seus movimentos e andar de forma tão silenciosa e rápida como fazia em sua forma anterior.

Alcançou a rua principal e a entrada da Estalagem, onde o cheiro de girassol, areia quente e mel da Zhuran ainda pairava. Parou por um instante, pensativo, notando que a queimação em seu antebraço direito aumentava lentamente, não de forma a doer, mas apenas um incômodo leve, fácil de ser ignorado, indicando que ela se afastava dele num passo lenta. Ela perceberia que ele a estava seguindo, como sempre fizera cada vez que saía nos últimos dez anos, quando a sensação das marcas permanecesse constante ao invés de aumentar. Provavelmente, continuaria sem condená-lo por isso, ciente da dor que a distância provocava, embora talvez desconfiasse.

Perguntou-se se, agora estando ele numa forma humana, isso a impediria de fazer o que costumava fazer nas noites que passava em cidades nos últimos três anos, mas duvidou. Ela nunca parecera ligar de fato que ele a seguisse.

Suspirou, começando a seguir o cheiro da Zhuran, embora soubesse que ela costumasse frequentar o Reflexo da Terra quando em Linuan. Era o hábito que o levava a sair do quarto, seguir o cheiro de Asa e vigiar se tudo permaneceria bem.




Sigried viu, de seu lugar no topo da árvore que ocupava a viela lateral ao Reflexo da Terra, quando Asa passou na frente da janela escancarada e se acomodou num sofá de dois lugares ao lado de um Senhor-Salgueiro, que começou a paparicá-la quase imediatamente. Com uma garrafa de dois litros de rum na mão que tinha apenas um quarto da bebida, ela ria de modo estranho. O ser ao lado dela também ria, mas estava claramente mais sóbrio, apesar das duas garrafas de dois litros vazias aos seus pés e ainda segurasse uma terceira.

Por um instante, o Lobisomem se perguntou se sua natureza mista lhe daria uma resistência ao álcool similar à dos demais seres do Espelho, talvez até maior que a de Asa; notou a besta no canto de sua mente se animar com o pensamento, e cortou o álcool de sua vida: não se arriscaria a baixar a guarda para que a fera o controlasse.

A dupla riu mais um pouco, o ar parado auxiliando ao cheiro de ressaca, álcool, alucinógenos, doença e sexo a alcançá-lo, dando-lhe náuseas; o odor era forte, especialmente para seu nariz sensível. Além da vontade de vomitar, sentiu sua mão se contrair involuntariamente, os dedos abrindo fendas na casca do carvalho, quando o habitante do Espelho começou a beijar a Zhuran, que correspondia enquanto deslizava as mãos por ele. Viu ainda os dois se levantarem e então sumirem para o interior do bordel.

O Lobisomem não percebeu sua... Irritação, até olhar para as próprias mãos: uma estava coberta com a seiva da planta, os dedos tão fundos no interior do caule que ele teve alguma dificuldade para conseguir tirá-los, e a outra estava fechada em punho tão fortemente que, quando desdobrou os dedos, viu pequenos rubis escorrendo dos cortes que as unhas tinham deixado na pele.

Ela não percebia que aquilo estava destruindo-a por dentro? O sangue Demoníaco não tornava-a imortal, nem imune à todas as doenças. Resistente, sim, mas não imune.

O cheiro dela vinha se alterando lentamente, conforme o álcool corroía seu fígado e as substâncias alucinógenas exaladas pelos Seres do Espelho alteravam e destruíam as células nervosas. Ele podia dizer isso somente pelo cheiro. Aquelas substâncias matavam um humano normal em três meses, caso seguisse o ritmo de Asa. Ela só estava viva por causa do sangue não-humano.

E o pior é que ele tinha a resposta: sim, ela sabia que estava sendo destruída por dentro. E ainda assim, não parava.

A admiração que ele alimentava pela Zhuran, por tudo que a vira suportar e sobreviver durante o treinamento, o impedia de aceitar a forma como ela se matava de forma lenta e consciente, quase como se quisesse isso.

Desde a ascensão dos Alzú’Frigl, Sigried tentara entender o que fizera Asa alterar em tanto sua forma de ser. Mesmo tendo estado ao seu lado quase todas as horas do dia dos últimos dez anos, ele pouco sabia de seu passado. Conhecia-a como ninguém, mas apenas a partir de quando ela o capturara.

Sabia que ela nascera em Riuma, e que o avô era um Demônio. Sabia que seus pais tinham morrido quando ela tinha seis anos, assim como praticamente toda a sua família. Mas só.

Ninguém nunca falara mais que aquilo quando ele estava por perto, e ele não sabia quantos nem quais de seus parentes ainda eram vivos, e algo cutucava seu cérebro dizendo que a resposta estava ali, no passado desconhecido.

Com o olhar preenchido de decepção e raiva e os lábios franzidos numa linha fina de angústia, desceu pelos galhos e começou a voltar a passos lentos para a Estalagem. Suas marcas começaram a queimar conforme se afastava, e a besta, a pressionar as barras que a mantinham no lugar, ciente de ele ficava mais vulnerável quanto mais distante de Asa.

Doía e ardia terrivelmente, quase fazendo-o voltar só para parar com aquilo, mas a fúria de ver a Zhuran se destruir o fez continuar a se afastar com determinação e teimosia de uma forma que não lembrava de ter feito antes.

Buscou na memória como fazia para ignorar aquela sensação que o fazia querer arrancar o braço fora a base de mordidas — sempre que ela adentrava o Espelho, a dor chegava ao máximo para seus padrões, como se estivessem em cantos opostos do continente. Devagar, foi colocando tijolos de outros pensamentos ao redor da mensagem de dor: listou os pontos fracos dos seres que ele enfrentara e ainda enfrentava, lembranças do treinamento... Tudo que não envolvesse dor. Concentrou-se nesses tijolos e revestiu-os com as sensações de visão, som e cheiro ao seu redor, trincando os dentes com o esforço de se manter concentrado em tudo isso, enquanto enfrentava a besta e fortalecia a cadeia que a mantinha no lugar; com a mente dividida nesses dois assuntos, seu corpo, quase inconscientemente, guiava seus passos pela cidade até a estalagem.

Mal acreditou quando percebeu que estava na mesma rua onde aterrissara mais cedo, debaixo da janela do quarto de Asa.

Respirando fundo, tomando cuidado para que a parede que o protegia do pior da dor não desmoronasse e para a gaiola da fera não ceder, olhou ao redor rapidamente antes de pegar impulso e saltar, suas mãos alcançando o batente e sustentando-o. Apoiou os pés na parede e içou-se para dentro do cômodo, parando no interior escuro, iluminado apenas pela luz exterior.

Com o antebraço queimando de forma suportável graças ao muro, olhou para fora, a barreira lançando brilhos e reflexos mais frequentemente, parecendo quase sólida na noite, o luar de Átria batendo no encanto e parecendo escorrer como vellum líquido pela superfície, tornando as Planícies nebulosas como que vistas através de um véu fino de algodão tingido de vermelho.

Respirou fundo, esfregando as marcas, e então se encolheu no canto onde o lençol, o travesseiro e o cobertor que a Zhuran lhe dera estavam cuidadosamente esticados. Do lugar, ele conseguia tanto ver a porta como o céu lá fora. Concentrou os olhos nas duas luas visíveis, a parte da mente que estava livre da dor e da besta girando e girando, tentando pensar em como fazer Asa parar de se destruir.




Asa entrou no quarto e fechou a porta atrás de si com cuidado para a peça não ranger. Confirmou a presença de Sigried no cômodo, encolhido no canto onde tinha dormido nos dois últimos dias, a luz suave do amanhecer entrando pela janela e iluminando os cabelos negros.

A cabeça dele se ergueu de repente. Os olhos estavam injetados, o vermelho do sangue rodeando o azul, uma joia de vellum com uma safira muito clara e transparente incrustada. O braço direito estava caído ao lado dele como um peso morto, como que para impedir-se de fazer alguma loucura.

A pele ao redor das narinas se enrugou, e aboca se torceu num esgar de nojo. No instante seguinte, ele ficou de pé e virou o rosto para a janela, a coleira em seu pescoço balançando com os movimentos.

— O que foi? — a mulher perguntou, as sobrancelhas franzidas acima dos olhos escuros.

— Não existe salão de banho naquele bordel?! Pelas três luas, você tá fedendo mais que uma mina de oricalco!

Asa cruzou os braços, consciente do quão insultada tinha sido enquanto franzia as sobrancelhas. Ela não podia estar cheirando pior que a mistura de urina, fezes e decomposição com altas porções de enxofre que era o cheiro característico das minas de oricalco.

— Exagerado… — limitou-se a falar, agradecendo mentalmente o fato de estar desarmada ou teria respondido o insulto com violência.

Sigried virou o rosto para Asa, e ela identificou um olhar de maníaca certeza do que dizia no azul-claro.

— Você tá cheirando a tanto alucinógeno diferente que dá pra saber que dormiu com no mínimo três Senhores de espécies diferentes. E bebeu tanto que parece um bar ambulante... E também parece que acabou de sair da emergência de um hospital, de tanto cheiro de infeção e mais um monte de doenças. Espero que seja só o cheiro, e a doença tenha ficado lá... — Asa piscou, sentindo o queixo afrouxar. — Quer o meu olfato emprestado?

Por alguns segundos, ela observou a expressão maníaca e de nojo no rosto de Sigried, antes de fechar a boca com um estalo e balançar a cabeça em negativa.

Aquela reação explicava porque, quando na forma de Lobisomem, ele ficava tão inquieto e agitado quando ela voltava de suas noitadas. Tantos cheiros diferentes e fortes numa única pessoa... Anotou mentalmente para sempre tomar um banho bem demorado e para praticamente arrancar a pele de tanto esfregar antes de sair dos bordeis que frequentava, para evitar ouvir que fedia mais que uma mina de oricalco de novo.

Com um suspiro, endireitou a postura e tirou a sacola de couro do ombro, jogando-a para o rapaz, que a pegou sem dificuldade.

— É a carne de Javali... Comprei agora de manhã, então ainda tá fresca... — olhou ao redor, pensativa. — Me espere fora da cidade, perto da saída leste. Te encontro em uma hora. — deu uma pausa, fitando-o. Nos últimos dois dias, ele demonstrara lembrar bem de mapas de antes de se transformar e de saber tomar direções, o que era um alívio para ela. — E, por Átria, se não estiver lá, te entrego pros estudiosos da Ordem.




Sigried sabia que ela estava falando sério ao jurar pela terceira lua, a única que não aparecia no Espelho. Os Zhurans acreditavam que Átria possuía alguma relação com o Vellum e o Espelho, e era o mais próximo de um deus que possuíam. Quando queriam ser levados a sério, juravam por ela. O Juramento da Ordem era em seu nome. Ela aparecia até mesmo no brasão.

Por isso, quando Asa falou que o encontrava em uma hora, fora da cidade, ele pulou pela janela sem titubear.

Querer escapar do cheiro que tinha começado a se fixar no quarto provavelmente ajudou a decidir que atravessar o retângulo fora a melhor ideia que tivera na trezena.

A pior com certeza fora dizer que ela fedia mais que uma mina de oricalco... Sabia que, em algum momento, teria de contar a ela que ela estava longe de cheirar bem quando voltava de suas noitadas, mas não tão já e não com termos tão literais, se ele tinha amor à própria vida: a única coisa que não mudara nos últimos três anos era o quão vingativa Asa era capaz de ser.

Riumenses...




Quando terminou de lamber o sangue dos dedos, decidiu que era realmente uma questão de fisiologia Lobisomem. A carne continuava tão saborosa quanto se lembrava, e fora um alívio para seu estômago vazio. Até mesmo a besta ficara mais calma em sua gaiola.

A distância que estava de Asa era maior do que a da noite anterior, mas depois das vezes que teve de esperar uma trezena até que ela saísse do Espelho, ele aprendera a fazer a muralha durar quanto maior a distância. Tudo bem, às vezes ele não aguentava e se jogava contra a superfície mais dura ao redor, procurando desmaiar, mas geralmente suportava muito bem.

Assim sendo, não deixou de apreciar o Bosque do Vento, que se estendia desde a base da Cordilheira, suas monstruosas montanhas visíveis mesmo a quatro dias de caminhada em linha reta. As árvores eram variadas, a maioria alta e de copas frondosas e coloridas, mas algumas brianis com suas folhas cobertas de pó prateado e curativo e tronco branco como leite eram visíveis de vez em quanto, diversas com os ramos cheios de botões lilases. Um sinal da proximidade do inverno.

Perguntou-se se passariam pelo Bosque de Prata quando a estação fria chegasse e as flores se abrissem. Já tinha visto o lugar todo colorido de roxo e lilás com as flores duas vezes antes; era uma das visões mais lindas que já tivera e que gostava de repetir.

Sua mente se desviou das flores de briani quando sentiu a dor começar a abrandar. Observou o antebraço, que afora as marcas em formato de raios, estava intacto, enquanto tirava um tijolo de cada vez, conforme a dor diminuía.

Esperou até a muralha ter praticamente deixado de existir antes de pular do galho onde tinha estado deitado para o chão coberto de folhas secas.

Começou a caminhar na direção que a sensação de braço em chamas diminuía. Ao mesmo tempo, preparou-se psicologicamente para a provável vingança pelo insulto acontecer quando ela colocasse os olhos nele.

A certa altura do caminho, o vento soprou em sua direção, trazendo o cheiro da Zhuran e, junto, o aroma doce e alcoólico de licor de avelã negra, uma das bebidas mais fortes e caras graças ao processo para se neutralizar o veneno que o fruto possuía. Uma careta se formou em seu rosto ao pensar que, àquela hora do dia, Asa já estava bebendo.

Era tão difícil assim ficar longe do álcool por muito tempo? Não fazia duas horas que ela parara de beber no bordel... E quando imaginou que ela pagara pelo menos dezenove argentumies na bebida, quase um aurumie, socou a árvore mais próxima, deixando uma marca funda na casca.

Sigried não era bobo; sabia que Asa controlava suas finanças. Sete anos assistindo-a anotar compulsivamente seus gastos e ganhos, enquanto murmurava os valores, num caderno encantado para que somente ela pudesse enxergar o que estava escrito, o tinham feito descobrir que ela procurava guardar até mais que o um terço obrigatório para sua aposentadoria. Mas também tinha notado que, nos últimos três anos, ela relaxara até demais.

Suspirou. Agora não teria apenas que enfiar na cabeça cada dia mais oca para que parasse de se autodestruir, como também teria de martelar para que ela tomasse mais cuidado com seus gastos, ou teria que começar a tirar de suas economias pessoais — dinheiro que sobrava do terço para se manter e que ela guardava com cuidado — para cobrir o terço dos Zhurans e de sua aposentadoria.




Após alguns minutos, os dois finalmente se encontraram. O Lobisomem franziu, novamente, a pele ao redor das narinas ao contemplar a mulher escorada numa árvore e entornando a tal garrafa de licor. A corrente de prata que geralmente estava presa à sua coleira estava enrolada e colocada em transversal no seu tronco. Usava a versão leve de sua armadura, sem peitoral, com as manoplas integradas às luvas de couro, sem precisarem de correias para se prenderem aos seus membros; o mesmo valia para as grevas, integradas às botas.

— Ainda não é nem metade da manhã, e você já tá enchendo a cara? E se precisar lutar e estiver com os sentidos embotados? — viu-a sorrir de um modo brilhante, começando a andar em sua direção e apoiando um braço em seu ombro, a mão roçando a coleira.

— Não se preocupe. É só hoje. E além disso, você está sóbrio, então...

Sigried ergueu uma sobrancelha.

— Só hoje? Duvido. Pessoas que bebem antes do meio do dia nunca bebem “só hoje”. — Asa bufou, uma expressão de ira chegando ao seu rosto, as pupilas brancas se dilatando.

— Será que dá pra parar?! Mal voltou a forma humana! Primeiro o meu cheiro, e agora o fato de eu beber...! Se você era assim aoz onze antes de se transformar, não me surpreende que seus pais disseram pra todo mundo que tinha morrido, ao invés de falar que era honrosamente um Lobisomem da Ordem! Deve ter sido um alívio pra eles se livrarem de você! — Asa tocou as runas da coleira numa determinada ordem, prendeu a corrente no elo e começou a se afastar, puxando a outra ponta com força.

Sigried apenas observou, incrédulo, quando ela começou a puxá-lo, forçando-o a se movimentar. Ele não queria, mas quando sentiu uma picada de dor se irradiar do pescoço, soube que, se resistisse, logo estaria caído no chão, em convulsões. Já tinha resistido antes, quando sua forma era a de um lobo monstruoso, e não queria experimentar aquele tipo de dor novamente.

Então, limitou-se a segui-la, os olhos azuis e gélidos perfurando as costas de Asa com um sentimento puro de raiva. A besta no canto de sua mente implorou para ser libertada e atacá-la. Ele sentiu-se tentado a soltá-la, mas sabia que, se realmente representasse um perigo para a Zhuran com as runas ativadas, a coleira lançaria um encanto de paralisação. Outra coisa que aprendera na prática.




Após alguns minutos de caminhada, em direção à estrada que os levaria para Vulna e para o Caminho Aberto, sua mente começou a refletir no que ela contara sobre seus pais.

Nunca soubera o que fora deles após sua transformação. Nem deles nem do irmão mais velho, embora imaginasse que ele havia ido para o Palácio Celeste tentar se tornar um Guarda Real, como sempre sonhara. Se fosse o caso, esperava que ele não fosse uma das centenas de pessoas que haviam morrido no golpe. Imaginou se ela falara a verdade sobre seus pais, ou se fora apenas uma forma de irritá-lo.

A curiosidade levou a melhor, forçando as palavras para fora de sua boca.

— Eles realmente falaram que eu morri? — Asa parou de andar e se virou para observá-lo. Sigried sabia o que ela veria em seu rosto: confusão, curiosidade e um pouco de medo.

— Sim. Você estava sendo levado para a Fortaleza, mas eu e meu mestre ficamos, para descobrir quem você era e dar a notícia. Depois que Mestre Dell terminou, eles conversaram baixo por um tempo e então sua mãe foi falar com o seu irmão, que ainda não tinha se recuperado da catapora. Ela deixou a porta aberta, então ouvi quando ela falou que você tinha morrido. — ela virou-se para continuar andando, e ele a seguiu. — Ouvi quando ele chorou e amaldiçoou as Canções de Nascimento, falando que elas eram mentiras, já que você não tinha cumprido nada do que a sua dizia. Eu quis falar que ela estava mentindo, falar que o Humano ainda existe dentro do Lobisomem, mas Mestre Dell me segurou e me disse que aquilo não era assunto dos Zhurans. Fomos embora logo em seguida.

Sigried pensou sobre o que Asa lhe contara. Não era difícil imaginar porque os pais preferiram matá-lo de vez.

Era melhor matar o filho do que admitir que tinha se transformado num monstro que matara uma criança.




O meio do dia chegou e passou, sem que parassem para comer ou descansar. Asa tinha terminado a garrafa de licor por volta das da catorze da manhã, quando ela a guardou em sua mochila encantada e tirou outra, cheia. Agora, às quatro da tarde, com a segunda garrafa vazia, eles finalmente tinham parado, por insistência de Sigried. Ela afirmava que estava bem, mas a insistência e a teimosia do Lobisomem a venceram.

Sentaram na beira do bosque, aproveitando a sombra e a brisa suave que vinha do sul por entre as árvores, refrescando-os e trazendo o cheiro de eucalipto, hortelã e de outras ervas e árvores. Asa abriu sua mochila e pegou a sacola de provisões.

— Acho que foram os temperos da carne que não caíram bem em você. — conseguiu dizer ao jogar um pedaço de queijo branco para Sigried. A Zhuran o observou mordiscar com cuidado o laticínio, só comendo o próprio pedaço quando ele devorou o queijo com uma expressão de alívio.

Ficaram em silêncio por um tempo, saboreando a refeição frugal na companhia de água. Com o cérebro ainda cheio de álcool, não percebeu quando a boca se abriu e a voz saiu através de seus lábios.

— Sabe, Sigried... Eu queria parar com tudo isso, sabe... Com as noitadas nos bordeis, com a bebida praticamente a todo momento que não estou trabalhando... — parou. O rapaz a observava, uma expressão difícil de ser decifrada no rosto. — Eu sei que os alucinógenos tão destruindo a minha cabeça, mas eles me fazem lembrar com mais detalhes, e sonhar o que nunca vai acontecer... É bom lembrar e sonhar, mas depois fica doloroso... E aí eu bebo, porque só quero apagar e esquecer... Mas depois quero lembrar e sonhar de novo... E aí corro pra um Senhor. E fico assim... Lembra-esquece, lembra-esquece... — suspirou, deitando na grama e fechando os olhos. — Eu queria poder parar... — murmurou, colocando o antebraço sobre os olhos.

Um tempo depois, notou que a mente começou a desanuviar e que seu senso de equilíbrio estava melhorando. Bufou por ter a comprovação de que Sigried estava certo: a bebida tinha lhe subido a cabeça.

E então soltou um som estrangulado, consciente da “conversa de bêbada“ que tinha acabado de produzir. Existiam verdades nessa conversa que ela não queria encarar agora que a comida estava ajudando seu cérebro a pensar com mais do que dois neurônios. Por isso, limitou-se a se levantar, puxar a corrente de Sigried atrás de si e deletar tudo que dissera da mente, como sempre fazia.




Sigried quis rir histericamente quando ela começou a ladainha bêbada. Asa a repetira incontáveis vezes nos últimos três anos, as mesmas coisas sobre lembrar e esquecer e que queria parar. Geralmente, antes de um coma alcoólico de dezesseis horas em cima de suas costas. Ela gostava de alugar seus ouvidos quando bêbada.

Nas primeiras vezes, tivera esperanças de que ela falava sério e de que pretendia parar de se destruir. Mas conforme tudo se repetia, deixou de acreditar e deu os créditos das palavras ao álcool, e não à Asa.

Com uma expressão de desgosto, o Lobisomem a seguiu, procurando manter a maior distância possível. Ela ainda cheirava a licor de avelã negra, e ele detestava o cheiro.


Queria poder jogá-la num rio, talvez assim o cheiro saísse.