09 setembro 2016

Resenha COMBO! - Mass Effect Revelação e Mass Effect Ascensão


"- Estou seguindo Skarr há dois dias - respondeu o turian. - Esperando que ele tomasse uma atitude.

- Seguindo? -  perguntou Kahlee ao se aproximar para ver o ferimento do pai. - Para quê? Quem é você?

- Meu nome é Saren. Sou um Espectro. E quero algumas respostas." (pg. 153)


E é à partir desse ponto que a vida de Anderson entorna. Mais ainda.

Ok, Ok. Do começo. Vamos lá.

Tudo começa com David Anderson. Para quem conhece a trilogia de jogos Mass Effect, o Capitão de Shepard que mais tarde vira Almirante. Na época de Revelação, ele ainda é tenente. Bem jovem. Tudo começa com um ataque a uma base de pesquisas humana no planeta Sidon, e Anderson é encarregado de investigar o ocorrido. Ao longo da história, ele acaba por conhecer Kahlee Sanders, uma cientista; nos jogos, nós a conhecemos durante uma missão na Academia Grissom em Mass Effect 3 (Editado: Misturei as personagens - anteriormente: DLC Arrival de Mass Effect 2). E também acaba por se "aliar" a Saren Arterius, por suas investigações se sobreporem (não lembro com exatidão qual a investigação que Saren realizava no momento); quem lembra da postagem sobre o universo de Mass Effect deve lembrar que mencionei que Saren é o vilão no primeiro jogo.

Ao longo da história, a diplomata humana consegue meio que convencer o Conselho a dar uma chance de Anderson se tornar um Espectro. E Saren é o encarregado de avaliá-lo.

Para quem jogou o primeiro jogo: sim, estamos lendo o que Anderson nos explica quando entrega a Normandy para Shepard, sobre sua relação com Saren. Quando ele quase virou um Espectro e as coisas terminaram mal.

Para quem conhece a trilogia de jogos, pode parecer meio redundante ler o livro, afinal sabemos como vai terminar, de certa forma. Mas não é. Lendo, os fãs da trilogia descobrem os detalhes sórdidos, como tudo aconteceu em detalhes e algumas coisas que os jogos não contam. Especialmente o epílogo, com relação à um tal Sovereign aí....

A narrativa é leve, fluída e simples, fácil de acompanhar, mas também ativa. Quando as coisas acontecem, é fácil imaginá-las, e quase sempre tem algo de novo acontecendo. As lutas, os tiroteios, as negociações diplomáticas, tudo dá uma sensação fácil de visualização; talvez por eu já conhecer a trilogia, seja mais fácil visualizar as espécies alienígenas quando mencionadas, mas achei as descrições suficientes. Acho que realmente a única coisa que não me agradou foi os termos dos nomes dos ets tenham ficado em inglês na tradução para pt, talvez porque joguei muito em espanhol e acostumei com turian = turiano e afins.

O enredo em si não é, por exemplo, um Mistborn da vida, cheio de camadas e segredos, mas é agradável e até que interessante. E os personagens trabalham bem em conjunto com esse enredo: são bem desenvolvidos, e apesar de suas falhas e ações, é bem demonstrado como eles são "cinzas", especialmente Saren: por mais que ele odeie a humanidade e afins, percebo como ele se esforça para fazer o que acredita ser certo. Passei a entendê-lo melhor ao ler Revelação.

Mass Effect Revelação é, na minha opinião, uma ótima prequel de Mass Effect, contando detalhes interessantes sobre o mundo - por exemplo, os batarians quase não possuem destaque nos jogos, por terem saído do espaço do Conselho ao se recusarem a acabar com o escravagismo, mas em Revelação descobri um pouco mais sobre como sua cultura e hierarquia funcionam - e sobre o passado. Recomendo para qualquer um que tenha jogado a trilogia e queira mais de ME e para pessoas que não jogaram mas que gostam de boas aventuras com certo mistério para entreterem.

Classificação Final:







"Gillian tinha uma consciência dolorosa de que era diferente e, sobretudo, queria ser normal. Mas as outras crianças a assustavam. Eram rápidas demais. Barulhentas demais. Estavam sempre se encostando. Os meninos batiam-se nas costas ou trocavam socos no ombro; às vezes, empurravam os outros, rindo alto de piadas que ela não entendia. As meninas se curvavam para perto das demais, colocando a mão em concha nos lábios enquanto se aproximavam da orelha de uma amiga para cochichar segredos. Davam risadinhas e gritavam, segurando o pulso ou o braço da outra, ou fechando a mão da amiga na própria mão. Em outras vezes ela as via trançando o cabelo da outra. Gillian não conseguia imaginar como era aquilo, viver em um mundo em que o contato físico não provocava uma explosão de fogo na carne nem feria com um frio de congelar." (pgs. 101-102)

O que eu mais gosto em Ascensão foi o fato de Drew ter incluído uma protagonista autista, e a forma como ele trabalha com esse fato sobre Gillian ao longo do livro só ajuda. Ela se esforça; ela vê as outras crianças ao redor e pensa sobre querer ser normal, ao mesmo tempo que enxerga o mundo de seu próprio jeito singular. Do meu ponto de vista, ela foi muito bem trabalhada, especialmente na questão de como ela se supera, por assim se dizer, ao longo da história.

Mas vamos lá.

Gillian, autista e com dons bióticos, é uma estudante da Academia Jon Grissom da Aliança para bióticos, particularmente parte do projeto Ascensão. Só que o grupo pró-humano terrorista Cerberus realiza pesquisas não-autorizadas e secretas com ela, através da ingestão e aplicação de substâncias desconhecidas entregues à um determinado contato dentro da Academia pelo pai de Gillian, Paul Grayson. Kahlee, de Revelação, está de volta como uma das instrutoras de Gillian, vinte anos depois dos acontecimentos envolvendo Anderson.

Apesar de Grayson ser quem entrega as substâncias e de ser um viciado, dá pra perceber ao longo da narrativa que ele realmente ama Gillian e se preocupa com ela. "Mas por que ele faz o que faz?". Porque Gillian não é sua filha biológica e quem encarregou-o de cuidar dela foi o líder da Cerberus, o Homem Ilusivo (Illusive Man é mais forte, na minha opinião :v). Ele bem dizer não tem opção se querer continuar com ela.

Seguindo os planos da Cerberus, quando Gillian quase morre na Academia, Grayson a tira de lá, alegando "querer protegê-la da Cerberus". Só que, inesperadamente, Kahlee e Hendel, outro instrutor da Academia, vão junto com ele. Os acontecimentos seguintes se entrelaçam com outros que ocorriam com alguns quarians (cujo detalhes não me lembro), o que acaba levando o grupo para a Frota Migrante quarian e onde tudo entorna de vez. Para quem jogou a trilogia, os acontecimentos contam em detalhes algo que Tali menciona ao encontrar Shepard pela primeira vez em Mass Effect 2, sobre a Cerberus ter tentado se infiltrar na Frota e afins.

A narrativa, como a de Revelação, ainda tem seu jeito leve e fluído e fácil de entender sem deixar de ser ativa, mas com um toque mais próprio quando o ponto de vista vai para Gillian, uma narrativa mais "toda Gillian", por assim se dizer. Eram minha partes favoritas, ver o mundo através dos olhos dela.

O enredo é mais intrincado que o de Revelação, em certo ponto, mais imprevisível: eu só descobri que se referia ao tal evento que Tali menciona quase no final do livro. Os personagens continuam muito bem trabalhados, e seus rumos podem surpreender um pouco, alguns de forma muito feliz, como o rumo de Gillian, que o final deixa claro porque ela nunca foi mencionada nos jogos, diferente de vários outros personagens dos livros (embora eu goste de imaginar que ela está viva e bem após o 3), e o rumo de Grayson: o que ele faz no final só mostra como ele ama e se preocupa com ela.

Para mim, Ascensão é um dos melhores livros que já li, por conta de seu trabalho com Gillian, e uma excelente prequel de Mass Effect que mostra mais um pouco da falta de escrúpulos da Cerberus, como todas as espécies do universo de ME, por mais virtuosas que pareçam, possuem suas frutas podres, e principalmente revela mais um pouco sobre o quarians e outros detalhes sórdidos por trás dos jogos.

Classificação Final: