16 julho 2017

Caco de Vidro 1 - Terra de Vidro: Fraqueza em Seus Olhos

“I've been needin' a hand
For too long
I've been needin' a friend
I'm not strong
Will you give the strength?”

“Eu venho precisando de uma mão
Há tanto tempo
Eu venho precisando de um amigo
Eu não sou forte
Você dará a força?”

(Weakness in Your Eyes — Elysion)

Era o terceiro dia de caminhada no Caminho Aberto através da Cordilheira do Vento. Ou seja, se não houvessem problemas na estrada, chegariam em Suzri, a cidade-sentinela no lado Leste da passagem, em dois dias.

Sigried vigiava as costas de Asa, alguns passos à frente e entornando o que, pelas suas contas, era a terceira garrafa de vinho do dia. A única coisa que impedia um torcer de desgosto de sua boca era o som murmurante do rio Espelho a alguns passos de distância ao norte, a margem da estrada entrando num declive suave em suas águas, correndo veloz em direção à Vulna, a cidade-sentinela no lado Oeste da passagem. Era um som tranquilizante, que penetrava em seu cérebro quase como uma droga.

Ao sul, o seu principal motivo de preocupações: árvores verdejantes, com troncos tão espessos que seriam necessários dez homens para rodeá-las, altas e com copas extensas. Esconderijo perfeito para seres do Espelho.

Talvez o rio devesse ser sua principal preocupação, afinal, produzia Reflexo. Um portal perfeito entre as duas dimensões. A maior parte das pessoas comuns pensava assim. Mas ele enfrentara os habitantes daquele mundo por oito anos e aprendera seus hábitos; aqueles que não marcavam território, como boa parte das Damas e Senhores faziam, preferiam atravessar quando ninguém estava olhando, se esconder próximo à fonte de reflexo — o rio, no caso — e aguardar por alguém distraído o bastante para ser sua próxima vítima; mesmo um lugar tão movimentado como aquela estrada, com caravanas e viajantes passando a todo o momento, era um ótimo ponto para eles encontrarem vítimas.

Saber que as montanhas em volta eram território dos Silfos e Ninfas não o acalmava. Já ouvira e vira o bastante para descobrir que, apesar de tudo que sabiam, de todas as suas tecnologias, eram simples mortais incapazes de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, garantindo a segurança de seus territórios contra os seres do Espelho. Sofriam tanto quanto os humanos.

Bufou, cruzando os braços, olhando de novo ao redor de forma nervosa. Desde a primeira vez que atravessara o Caminho Aberto, anos atrás, sentia-se uma bomba prestes a explodir sempre que voltava a cruzar aquela estrada. Nunca tinham sido atacados enquanto entre as montanhas, mas a sensação de perigo nunca desaparecera. Não sabia se era a sensação de não ter para onde correr que a Cordilheira provocava, mas seu instinto sempre o atormentara ao passar entre ela.

Então, procurando desviar os pensamentos da sensação de perigo, deslizou os olhos ao redor, até que se fixaram na coleira em seu pescoço, trincando os dentes ao notar a iluminação opaca no tecido da capa, feita pela luz suave que as runas produziam. Arrumara a capa para que ninguém pudesse perceber o metal envolvendo seu pescoço, mas ele próprio ainda podia ver aquela luz suave ao baixar o rosto.

Nem mesmo o som do rio ao lado era capaz de esfriar a lava que passava a correr em suas veias e artérias toda vez que se lembrava daquele grilhão em seu pescoço. Aquilo, junto dos efeitos da Sripati e de ver quem garantira que ele não matasse mais inocentes se destruindo, o enlouquecia.

O encanto da Sripati apenas ligara seus espíritos. A dor que era provocada pelo estiramento dos espíritos funcionava como um radar, uma forma de acharem um ao outro. Ele sabia que os Zhurans a modificavam para que fosse pior nos Lobisomens, mas era algo que não o prendia. Era uma ligação, não uma prisão.

A coleira era diferente. Encantamentos e mais encantamentos cujos nomes ele nem sabia, ativados através de uma sequência específica de runas, forjada em prata e vellum para aceitar somente o toque de determinado Zhuran. Era através delas que eram castigados. Se não obedecessem as ordens quando certos encantos eram ativados, sofreriam algo. O preferido de Asa para controlá-lo eram convulsões. E o encanto que o impedia de fugir, de se afastar e não voltar, nem precisava ser ativado: bastava agir com essa intenção e choques o percorriam. Aquilo era uma prisão, e a sensação de aprisionamento o fazia ter vontade de arrancar a própria pele, mais do que a dor que a distância causava em seu antebraço.

Enquanto era uma besta cujas ações tinha dificuldades para controlar, era completamente consciente da necessidade dos encantamentos estarem quase sempre ativados. Não queria a morte de mais inocentes pesando-lhe. Era uma precaução que ele aceitava de bom grado.

Mas agora era diferente. Não seria hipócrita: a fera forçava a jaula que ele fizera a todo instante, querendo assumir as ações do corpo humano, mas ele conseguia mantê-la no lugar, não ceder, mesmo nos piores momentos, ao menos por enquanto. Não precisava daqueles encantos limitando-o, transformando-o num simples objeto.

Talvez, se tivesse lembrado que a Zhuran detestava críticas e era vingativa, e ficado de boca fechada em Vulna, não estaria numa situação ainda pior de quando saíra de Linuan, já que ao final primeiro dia ela desativara os encantos e soltara a corrente, deixando-o relativamente livre. Aquele estava ativado há três dias; era a forma dela puni-lo por simplesmente falar a verdade: ela não viveria muito mais tempo se continuasse naquele ritmo insano de se embebedar e dormir com tantos Senhores e seus alucinógenos em tão pouco tempo.

Ela fizera justamente o contrário, ativara as runas e ainda prendera a grossa corrente de prata para arrastá-lo durante dois dias em meio às árvores para não serem vistos.

Deslizou a mão de leve sobre o metal, sentindo as pontas dos dedos serem chamuscadas pela prata; ao menos, não havia o peso extra da corrente atrapalhando seu senso de equilíbrio. Já estava tendo problemas o bastante para ignorar a sensação de irrealidade em seu cérebro, obrigando-se a acreditar em todos os estímulos recebidos, e com a vontade quase insana de se livrar do excesso de tecido sobre sua pele. Sentia-se preso com tanto pano, e agoniado sempre que o algodão se enroscava no que havia ao redor, limitando seus movimentos e o atrasando.

E os sapatos eram o pior.

Asa o obrigara a usá-los desde o segundo dia que saíram de Linuan. Dissera que era para proteger seus pés das pedras e do calor, mas tudo que pareciam fazer era atrapalhar. Não sentia o terreno direito, e por causa disso, não sabia onde pisar e vivia tropeçando. Seus olhos viam as pedras e acidentes no terreno mais óbvios, mas estava acostumado a sentir as elevações e depressões mais discretas com a pele nua, os pés se moldando a esses formatos naturalmente, deixando os olhos livres para descobrir o que havia ao redor. Além do fato do solado dos sapatos não ser flexível o suficiente para se adaptar ao terreno.

Afastou os pensamentos dos sapatos que confinavam seus dedos, e deixou as íris azul-gelo se alternarem entre observar a floresta ao sul e uma capenga Asa caminhando logo à frente; ela começava a dar cada vez mais passos para o lado da água, e Sigried se questionou se, antes da noite chegar, ela acabaria por conhecer o fundo do rio e ele teria de ir atrás. Enquanto desenroscava a capa de uma erva daninha qualquer, perguntou-se como, um dia, usara tanto tecido sem reclamar.



Parou de andar quando o céu tingiu-se de uma mistura de azul-escuro, vermelho e laranja, sinalizando que, em algum ponto no oeste oculto pelas montanhas, o sol começara a se por.

Com os pensamentos nublados pelo álcool, olhou ao redor, tentando decidir se arriscava caminhar mais um pouco, até a noite cair por completo, ou já parava para acampar; uma brisa gelada, vinda do leste, a convenceu de que a noite seria mais fria que o normal. Se quisesse uma fogueira aquecendo-a durante as dezesseis horas de escuridão que em breve começariam, era melhor reunir lenha logo. Preferencialmente, enquanto era dia e seria mais fácil se defender em caso de um ataque em meio às árvores.

Não que em seu atual estado de embriaguez pudesse fazê-lo como fora treinada. Era mais capaz que acabasse atirando em si mesma com suas armas, ou cortando os próprios dedos, mas nunca admitiria tal fato para Sigried depois do sermão que ouvira algumas horas antes de saírem de Vulna.

Asa sabia que o Lobisomem estava coberto de razão, de que tinha uma resistência absurda, mas que não era imortal.

Mas ela não queria ouvir verdades. Queria alguém que a seguia sem dar palpite em sua vida, lutando e apoiando-a quando necessário. Não alguém que a insultava, discutia e agia como se fosse seu pai brigando por causa de uma peripécia infantil.

Mesmo que estivesse errada e precisasse de um pai ou similar brigando.

Queria também não sentir a culpa, por ativar os encantos da coleira, pinicando seu cérebro enevoado. Cada vez que olhava para o rapaz, sentia aquela agulha querendo penetrar a letargia que usava de escudo para não pensar muito profundamente quando não estava focada em alguma missão. Era difícil observar a revolta mesclada à raiva pelo que fazia nos olhos de tom gélido quando estavam no meio de um rosto humano — era muito mais fácil quando era um simples lobo gigantesco. Não via as orelhas pontudas graças ao cabelo escuro, e desde o primeiro dia em Linuan, não existiam vestígios da loucura da besta; parecia somente um homem, meio desajeitado, mas humano. Muito mais real do que quando era apenas um Reflexo.

Queria que Sigried voltasse à sua forma de besta. Tinha medo de que, tendo-o todos os dias ao seu lado, pudesse baixar a guarda, e esquecer que, apesar de sua forma humana e aparentemente inofensiva, havia uma alma de lobo, de besta-fera, que dividia aquele corpo, disputando espaço com a alma humana. Não era uma Necromante e portanto incapaz de ver a eterna luta, mas era consciente dela. Era óbvio na forma como ele nunca relaxava, nem mesmo quando dormia, que era uma constante batalha para se manter no controle.

Tinha medo que ele perdesse a batalha e atacasse alguém, podendo até mesmo matar, sem os encantos da coleira para impedi-lo. Não temia por si mesma. Ele quase a matara uma vez, e mesmo assim, confiava de que, mesmo bêbada como estava, conseguiria lidar com ele caso fosse a vítima de sua falta de controle. Mas temia por crianças, por pessoas inocentes que pudessem estar próximas em tal momento se ela não estivesse atenta.

— Vamos passar a noite aqui. — aproximou-se da linha das árvores, expulsando de sua mente os pensamentos sobre Sigried e sua natureza não-humana, batendo o pé num local à sombra de um frondoso mogno-gigante, quase perdendo o equilíbrio ao apoiar-se num único pé por um instante. O viu balançar a cabeça com um ar de “Você não aprende” antes de se aproximar.

— Vou pegar lenha. — ouviu a fala do rapaz, logo seguindo com os olhos os movimentos que Sigried fez para tirar a capa e a camisa, mal reparando quando ele jogos os pedaços de tecido próximo aos seus pés. Sentia seu cérebro, enevoado e sem inibições graças ao álcool, admirar os músculos magros e delineados, cobertos de cicatrizes; “uma bela visão”, pensou com um ar ausente.

Admirando e elogiando demais para o seu gosto, constatou, balançando a cabeça com força e sentindo dor se espalhar pelo cérebro graças ao movimento brusco.

— O que você está fazendo? — perguntou, afinal, enquanto o via tirar os sapatos. Notou uma expressão de impaciência se formar no rosto de Sigried ao focar a atenção nela.

— Tirando esse monte de coisa que só vai me atrapalhar. — ouviu um ar de enfado na voz do Lobisomem ao responder sua pergunta. Então, ele se enfiou no meio das árvores atrás de madeira seca.

Asa observou a pele morena das costas se movimentar conforme os músculos contraiam e estiravam; seus neurônios entorpecidos quase a convenceram de que devia se aproximar dele e cobri-lo de mordidas, do mesmo jeito que fazia com os Senhores nos bordéis, mas bastou dar um tabefe no próprio rosto para que aquelas células rebeldes se concentrassem no que devia fazer quanto ao acampamento.

Olhou ao redor, antes de se acomodar no chão. Primeiro dobrou a camisa e a capa deixadas para trás, deixando-os ao lado dos sapatos cuidadosamente, e então tirou a sacola de suprimentos de dentro da mochila. Separou uma pequena panela, alguns vegetais e temperos, e pensando em fazer um ensopado assim que o rapaz chegasse com a lenha, já deixou as verduras e legumes descascados e cortados; por vezes, com os movimentos um tanto descoordenados, quase cortou os próprios dedos fora, mas conseguiu cumprir a empreitada sem muitos danos. Deixou os vegetais dentro da panela, se focando na atividade de cavar um buraco onde acenderia a fogueira e espetou o suporte da panela próximo.

Quando terminou o que tinha de fazer para preparar o acampamento — optou por não montar a barraca, considerando o céu limpo acima de si —, escorou no mogno-gigante e guardou as luvas e botas, enrolando a barra da calça até pouco abaixo dos joelhos.

Ademais, não saiu do lugar, esperando Sigried. Sua visão pulsava e os membros estavam ficando mais entorpecidos, dando-lhe certeza de que, caso tentasse andar muito, cairia no chão e dali não sairia tão cedo. Além de sono, impedido de tomar controle total dela apenas pela fome absurda se retorcendo em suas entranhas.



Tinha acabado de anoitecer quando o Lobisomem voltou, assustando Asa, que capengava de sono em seu lugar com as costas apoiadas no tronco; ela não escutara seus passos, ele não se fez notar, e ela estava afundada demais no álcool para notar qualquer sensação provocada pela Sripati. Ela só o percebera quando um coelho, gordo e do tamanho de seu antebraço e que ela deduziu estar com o pescoço quebrado pelo ângulo da cabeça, pousou ao lado da panela com um baque.

Piscou, observando-o arrumar os galhos e folhas secas no buraco que ela abrira mais cedo, com outros dois coelhos quase tão grandes quanto o que ele deixara ao lado da panela.

— Pra que o coelho? — perguntou, pegando o animal com cuidado e analisando o estado do pelo, pensando no que poderia usá-lo.

— Percebi que você gosta de ensopado de coelho... — resmungou, estendendo-lhe a mão quando terminou de arrumar a lenha. Asa enfiou a mão no bolso e entregou-lhe um isqueiro. — E eu só como carne crua, então... — ergueu os ombros, acendendo algumas folhas depois de algumas tentativas, enfiando-as no meio da madeira e devolvendo o objeto.

Asa balançou a cabeça pensativamente, pegando de novo seu estojo de facas de cozinha e se dedicando a tirar a pele do coelho sem danifica-la. Seria uma tarefa complicada, considerando seu estado, mas ela enfrentara os vegetais, podia enfrentar os coelhos.

— Pode colocar água na panela e botar ela no fogo? — Sigried deu de ombros e pegou o objeto de ferro, levantando-se. — Ah, me passa esses outros coelhos? A pele é boa, vou encomendar luvas pra você quando chegarmos em Suzri... — estendeu a mão, vendo-o erguer uma das sobrancelhas antes de jogar-lhe os animais.



Enquanto esperava o seu jantar ficar pronto, observou Sigried comer a carne vermelha, deixando os ossos limpos de qualquer vestígio, o sangue manchando rosto e dedos. Somente os dentes frontais eram aparentemente humanos; ela podia ver agora, com atenção focada neles, que os molares mais pareciam caninos; nenhum deles parecia ter problemas em rasgar as fibras cruas, e imaginou se cortariam com a mesma facilidade carne viva e coberta de pele. Com aqueles “caninos” extras, não duvidava de que realizariam essa tarefa com maestria.

Apesar de se alimentar com certo cuidado, segurando o animal com as mãos, ela lembrava muito bem de assisti-lo estripar um cervo adulto algumas trezenas antes, correndo atrás do animal e pulando na parte de cima do pescoço, mordendo-o e então quebrando-o com um movimento brusco, antes de arrancar grandes nacos de carne do corpo. Era fácil imaginá-lo fazendo o mesmo agora, na forma humana. Era fácil imaginar que, se não fosse a coleira, ele podia muito bem tê-lo feito alguns minutos antes e ela sequer perceberia.

Nesse instante, o cheiro do ensopado pronto a fez sair de suas divagações. E, enquanto comia, imaginou se Sigried a mataria ou deixaria para morrer, se tivesse a oportunidade, apenas para se ver livre.



Sigried observou Asa dormindo o sono dos bêbados com raiva. Ela mal terminara de comer antes de se entupir com mais um litro de vinho e resmungar que o primeiro turno da vigia era dele, antes de virar para o lado, fechar os olhos e esquecer do mundo. E, como nas noites anteriores, sem sequer sinalizar vontade de desativar os encantos da coleira. Cada vez mais, a quebra total de hábitos que tinham construído por dez anos o enlouquecia. Hábitos tinham salvado suas vidas mais vezes do que ele podia contar.

Além disso, previu o trabalho que teria dentro de oito horas, se decidisse acordá-la. Ela o xingaria, por causa do álcool e por ser acordada, antes de voltar a dormir sem nem considerar o que ele dissera. Tinha sido assim dois dias atrás. Conformou-se que passaria a noite em claro.

Pelo menos, sabia que a ressaca forte que a acompanharia no próximo dia a manteria longe do álcool — afinal, ela não trouxera poção contra o castigo dos bêbados —, dando-lhe a oportunidade de dormir na próxima noite. Até lá, ser um Lobisomem lhe garantiria resistir esse longo período sem dormir.



O meio da noite já passara há um bom tempo. Sentado próximo do rio, longe da luz da fogueira, Sigried observava o céu estrelado, o brilho azul de Fedra começando a aparecer, o de Asmara completamente sumido e a luz vermelha de Átria começando a diminuir. Era um céu lindo e límpido, que pelas suas contas, deixaria de ser visível em aproximadamente três horas.

Tentara acordar Asa cinco horas antes, mas ela lhe estapeara e amaldiçoara em riumense antes de voltar a dormir. Do jeito que ele previra que aconteceria, e agora, além do peso da coleira, tinha de lidar com a queimação em seu rosto provocada pelo tabefe, que estava demorando a passar. A Zhuran tinha uma mão naturalmente pesada; tinha de agradecer que ela tirava suas luvas para dormir, ou teria ganhado um hematoma muito mais duradouro, mesmo sendo um Lobisomem.

Àquela altura da noite, os únicos sons ao seu redor eram as folhagens da floresta, se movendo ao sabor do vento, o rio Espelho correndo inexoravelmente em seu curso, o fogo crepitante e a respiração pesada de Asa, por vezes interrompida por murmúrios que ele só identificou que eram em sua língua natal.

Suspirando, ergueu-se e se aproximou mais do rio, abaixando-se e observando a besta-fera em seu interior ser refletida de volta, uma leve luz avermelhada envolvendo-o, mas não o seu reflexo. Trincando os dentes, querendo esquecer aquilo que ele era até alguns dias atrás, segurou a respiração e mergulhou a cabeça na água fria até o pescoço, torcendo para que o líquido aliviasse a dormência na região do tapa e que o ajudasse a esquecer o grilhão em seu pescoço.

Após alguns segundos, levantou-se, balançando a cabeça como fazia quando lobo, querendo tirar o máximo de água possível do cabelo escuro. Quando parou e seus ouvidos e nariz voltaram a sincronizar com o que existia ao redor, notou três mudanças significativas.

A primeira era que o vento mudara de direção, trazendo um detestável cheiro de mar e carne podre, facilmente identificável como cheiro de Devorador, vindo da floresta.

A segunda era a queimação crescente em seu antebraço, demonstrando que Asa se afastava dele — além de um repuxar da coleira numa determinada direção, como efeito de um dos encantos que o impedia de se afastar muito dela.

E a terceira e mais preocupante: ele não estava mais ouvindo a respiração da Zhuran.

Antes de se virar, correndo para o acampamento, xingou-se por ser tão estúpido, baixar a guarda e quebrar mais um hábito: o de manter seus sentidos atentos, independente de como Asa o tratava. Com um olhar rápido, identificou as marcas na terra, se embrenhando por entre as árvores, por onde o corpo de Asa fora arrastado. Considerando a uniformidade, a mulher ainda dormia profundamente, e nem mesmo ser queimada pelos tentáculos de um Devorador a fizeram se arrastar para fora daquele sono provocado pelo álcool.

E, enquanto seguia os rastros, xingou Asa também: ela sabia que era arriscado beber tanto, à ponto de praticamente entrar em coma ao dormir, e ainda assim, estupidamente, o fazia desde que ele voltara para a forma humana, quebrando o próprio hábito de estar atenta fora das cidades.

Jurou quebrar cada uma das garrafas de álcool escondidas em sua mochila assim que a resgatasse do que era o fruto da estupidez de ambos. Assim, teria pelo menos sossego até chegarem em Suzri, antes que ela voltasse a se embebedar.



Tocou com cuidado uma das cicatrizes, clara contra a pele escura, no ombro direito e não coberto pela camiseta sem mangas; o formato deixava claro que o ferimento poderia ter arrancado o braço dele facilmente. Se inclinou e beijou-a com cuidado e carinho, de forma fraternal, imaginando quantas outras a roupa cobria.

Ouviu o homem soltar um suspiro com o contato, antes que ela envolvesse os braços em torno de sua cintura, repousando a bochecha na altura da escápula e apertando-o contra si. O calor dele era reconfortante, e quando ele entrelaçou as mãos com as suas, quase conseguiu fingir que eram de novo duas crianças, ela com seus quatro anos de idade, fugindo para o quarto dele durante a madrugada depois de algum pesadelo.

— Se eu não tivesse algumas piores de meu treinamento com os Zhurans, mataria seus mestres agora mesmo... — murmurou, sentindo os olhos marejarem ao imaginar as dores pelas quais ele passara naqueles nove anos separados. Sentiu o corpo dele se agitar com o riso.

— Eu não quero matar seus mestres, quero matar esse seu Lobisomem que fez isso aqui. — ele tocou sua coxa direita logo acima do joelho. A calça cobria a gigantesca cicatriz esbranquiçada que quase a matara cinco anos atrás no momento, mas ela subira o tecido o suficiente mais cedo para que o homem a enxergasse.

Então ele aproveitou para fazer cócegas atrás da articulação, arrancando-lhe risos.

— Eu sei que você quer! — conseguiu falar em meio à risada, feliz em saber que ele se lembrava daquele ponto fraco, antes de arrastar seus dedos na altura das costelas dele, o tronco se encurvando enquanto o homem tentava conter o ataque de risos. — Vi como você olhou pra ele quando cheguei! Mas lembre-se, o Sigried tinha acabado de se transformar, estava muito fera e pouco pessoa! — parou, ambos procurando acalmar as respirações, e apoiou a testa nas costas do irmão. — Não o machuque, por favor. — pediu baixinho, consciente de que ela própria já o machucava com aquela coleira, além dos seres do Espelho que caçavam. Não queria mais alguém provocando-lhe dor.

— Vou lembrar disso, maninha. Além disso, lembro muito bem de você me enchendo as orelhas de informações sobre Lobisomens e Lobos de Ferro quando voltava do Templo. Sei que ainda existe um homem lá dentro, que apesar de tudo, cuida de você. — ele deu um tapinha suave em seu joelho antes de se levantar e recolocar a túnica, a parte de cima da armadura de membro da Guarda Real e pendurar o boldrié da espada atravessado no peito.

Asa observou quando ele saiu dos aposentos que ela, como Zhuran, tinha direito, com um leve aceno da cabeça e um sorriso no rosto ao fechar a porta, antes de ir cumprir com suas obrigações. Sentiu o peito apertar com a saudade que não fora matada direito na brincadeira de contar cicatrizes, consciente de que teria de sair assim que a noite caísse para caçar uma Coral nas redondezas.

Momentaneamente o amaldiçoou por lembrá-la do ano em que fora noviça no Templo do Espelho dedicado aos Lobos de Ferro.



A cabeça doeu de repente, pouco acima da nuca, arrancando-lhe um gemido. Não sabia o que provocara a dor, mas agradeceu: era uma dor mais doce do que a que aquele sonho, uma das últimas vezes que encontrara o irmão, provocava. Lembrar com tanta clareza de quando eles decidiram mostrar um ao outro as cicatrizes presenteadas pelos anos de treinamento e missões sem precisar do alucinógeno de um Senhor era realmente surpreendente.

E dolorido demais. Sua cabeça ainda rodava e já doía com a ressaca, mas decidiu que precisava de álcool para afogar aquela memória e empurrá-la para o mais profundo de sua mente.

Só que quando estendeu a mão de forma descoordenada para o lado onde sua mochila devia estar, uma grossa raiz bateu em seu pulso com força, antes de sentir a pele ser arranhada conforme era afastada da casca grossa.

Foi apenas nesse instante que seu cérebro nublado de dor de cabeça percebeu que era arrastada através do solo da floresta, anormalmente silenciosa ao seu redor. Ergueu um pouco a cabeça, apertando as pálpebras, as pupilas brancas e sensíveis se contraindo ao máximo devido à bioluminescência de doer os olhos que o ser que a arrastava produzia.

— Merda. — resmungou ao reconhecer o Devorador e tomar consciência de que seus membros ainda estavam grogues, descoordenados pelo álcool, e que não poderiam fazer muito para tirá-la daquela situação.



Devoradores estavam entre os seres mais estranhos que habitavam o Espelho.

A princípio, tudo que se notava era uma pessoa estranha, com a pele de qualquer cor possível e imaginável, sempre meio translúcida, luminescente e com uma textura lisa e escorregadia. Olhos de tons brilhantes de verde e azul, somente com uma fina pupila negra no centro, e uma boca cheia de dentes pontudos e língua bífida. A seguir, notava-se os dedos das mãos, com uma fina e esvoaçante membrana interligando-os, e então os dos pés, que não existiam de fato, ao invés disso os membros inferiores terminando naquela estranha membrana. E apenas então era possível perceber que o ser do Espelho flutuava para lá e para cá num ritmo delicado, quase como se estivesse debaixo da água.

E só então o cérebro parava de ignorar os tentáculos finos e espertos que rodeavam os membros e o tronco, como se sustentando-os, e voltando à cabeça, era possível perceber que as pontas das orelhas se transformavam gradualmente naqueles tentáculos, saindo também de diversos pontos do couro cabeludo, como cabelos, que outros deslizavam ao seu redor com graciosidade, e que algo fino como uma cortina de água, à uma certa distância de seu rosto, caía até a altura dos ombros.

E então, só então, alguém consegue olhar para cima de fato, e ver a ampla água-viva flutuando acima do corpo humano, semitransparente e bioluminescente, aquele véu de água se derramando de suas bordas, os tentáculos em torno da boca se ligando e se enrolando a pessoa, tornando-os um único ser.

Aquilo, por inteiro, era um Devorador.

Não apenas eram os seres mais estranhos a habitarem o Espelho, como também os mais perigosos, com suas habilidades para matar um Reflexo e tomar seu lugar — e até mesmo tomar a aparência de alguém do mundo físico, dependendo do quão velho era —, o que facilitava sua tarefa de caça, especialmente quando os tentáculos atravessavam alguma superfície reflexiva e arrastavam a vítima para seu habitat, onde devoravam caça pedaço de carne e bebiam cada gota de sangue, como se há anos não se alimentassem.



Asa conseguiu imaginar duas razões para estar sendo arrastada pela floresta.

A primeira: o Devorador não podia leva-la para o Espelho usando o rio, por causa da presença de Sigried — ela já se perguntava como o monstro conseguira tirá-la do acampamento debaixo do nariz dele — e a levava para alguma superfície reflexiva nas proximidades, como um lago.

A segunda era que o Devorador possuía uma toca, onde a esconderia e prenderia e então voltaria rapidamente para o Espelho, antes que o sol nascesse, para voltar e se alimentar dela quando a noite caísse. Eles eram feitos basicamente de água, e como águas vivas e similares, morriam facilmente por desidratação. O sol do Mundo Físico era o maior inimigo deles.

Ela achava irônico que um ser tão perigoso possuísse uma fraqueza tão ridícula, e era ao mesmo tempo reconfortante saber que o sol e as fogueiras costumavam mantê-los afastados. Graças a isso, não era comum que os Zhurans tivessem de lidar com eles fora do Espelho.

Sentiu os tentáculos deslizarem por sua panturrilha, mantendo-a firme, e um assovio escapou de seus lábios, quase virando um grito no final. Até aquele momento, tinha conseguido ignorar a dor que a toxina provocava ao abrasar sua pele, mas quando aquele membro do Devorador mudou de posição, queimou outra parte e a fez ver estrelas.

— Merda de álcool... — amaldiçoou, constatando que nem mesmo a onda de adrenalina provocada pela dor fora suficiente para soterrar todo o álcool ainda em seu organismo e obrigar seus membros a se movimentarem para salvar a própria vida.



Foram poucos minutos para alcançar o Devorador. Primeiro foi cegado pela bioluminescência produzida pelo ser, antes de reparar em Asa, sendo arrastada em meio a terra, com uma expressão no rosto que mesclava dor, tédio e irritação. Imaginou que a irritação fosse devido à incapacidade de fazer algo para livrar-se daquela situação sem precisar de ajuda.

Bem, ninguém mandara ela se embebedar no meio da estrada, sendo consciente dos perigos que rondavam fora das cidades.

Seguiu-os por mais algum tempo, os olhos semicerrados, tentando calcular o melhor momento para atacar. Tinha de tomar cuidado, ou a mistura de pessoa e água-viva poderia usar Asa como escudo, e ele definitivamente não queria aquilo.

Embora conhecesse o cheiro e a aparência dos Devoradores, era a primeira vez que ele realmente podia observar um se movendo, já que, das outras vezes, ele e Asa tinham sido atacados por eles pouco depois dela sair do Espelho, o que não dava muita margem de espaço entre eles e o Devorador. E vendo o ser se movimentar de costas, alguns tentáculos presos com firmeza em torno das panturrilhas da Zhuran, outros explorando o ambiente ao redor, escolhendo o caminho e como que arrastando-o na direção desejada, enquanto as pernas e pés se movimentavam quase como se nadasse no ar, ficava fácil entender porque Riuma e Szan ainda tratavam os Seres do Espelho como deuses; era um movimento fluído, belo e hipnotizante, apesar de estranho.

Com cuidado, começou a rodear o caminho percorrido, a certa altura caminhando paralelamente antes de ultrapassar o ser, com a intenção interceptar o habitante do Espelho. Levou algum tempo, mas afinal, conseguiu.

Ficou de frente para as costas do ser, encarando os tentáculos que exploravam o caminho com cuidado, nadando no ar em sua direção, seu jeito um tanto relaxado não demonstrando que notara sua presença.

Sigried abaixou-se, apoiando um dos joelhos na terra, assim como as mãos, um pouco mais à frente, com cuidado para não quebrar folhas ou galhos, e esperou.

Levou alguns minutos, que pareceram horas, até que as pontas dos membros longos e finos roçassem a pele de suas mãos; trincou os dentes, resistindo à dor provocada pela toxina e a vontade quase incontrolável de pular para longe.

Curiosos com a textura diferente, os tentáculos começaram a explorar seus braços. Cada vez que a superfície escorregadia se afastava de um ponto, ele logo sentia seu corpo e suas células começarem a lutar contra a toxina e a curar a queimadura, enquanto mais dor se manifestava. Esperou, imóvel, até que alguns dos membros se enroscaram em seus braços, antes de agarrá-los com firmeza, se levantando num pulo e puxando os tentáculos com toda a força de seus membros humanos.

Ouviu um grito estridente, vindo do Devorador, pouco antes que os membros se rasgassem perto de suas origens, um espesso líquido azul-escuro se derramando das feridas abertas. Mais rápido do que uma pessoa normal imaginaria que um ser daqueles fosse capaz de se mover, o Devorador virou-se, a boca novamente se abrindo no berro enquanto avançava em sua direção.

Ao menos o ser soltara Asa, Sigried conseguiu pensar enquanto se jogava atrás de uma árvore, escapando de um tentáculo preparado para torcer-lhe o pescoço.

Não teve muito tempo para pensar. Quase imediatamente, sentiu o ar ao seu redor ser deslocado na altura da cabeça; seus reflexos apurados fizeram-no abaixar-se, e milésimos de segundos depois ouviu a casca da árvore se espatifar com o impacto de um tentáculo. Aproveitou o movimento para rolar no chão, se afastando, antes de se erguer e encarar o Devorador.

O tronco da árvore estava afundado alguns bons centímetros onde o membro do ser atingira. Dificilmente alguém imaginaria que algo tão mole e aparentemente frágil era tão forte.

O rosto humano o encarou com raiva, a língua bífida se estendendo para fora da boca, os olhos parecendo pensativos, considerando como aproximar-se dele.

Sigried imaginava a mesma coisa: como se aproximar para separar a água-viva do corpo humano. Era o modo mais rápido de acabar com um Devorador na ausência de fogo, e também o mais perigoso. Xingou-se por esquecer de pegar alguma das armas de Asa, mesmo que não soubesse manejá-las direito.

Desviou-se de alguns golpes, e então deu a volta numa árvore ao atrair o Devorador naquela direção; assim que circundou o tronco, voltou a enxergar o ser; pegou impulso e derrubou-o ao pular e cair sobre o corpo.

A água-viva espalhou-se sobre o chão, tentando se afastar, a forma humana escorregando debaixo de Sigried, os membros atacando-o com aparente desespero, queimando-o em quase qualquer pedaço de pele visível enquanto o Lobisomem envolvia as mãos em torno dos tentáculos que saíam da cabeça do Devorador.

Eram mais resistentes do que os que quebrara minutos antes, e o corpo se debatendo debaixo dele e os gritos estridentes não ajudavam; afinal, colocou um dos joelhos no pescoço do Devorador, os dois braços se concentrando em puxar a água-viva.

Os tentáculos se soltaram do couro cabeludo repentinamente, rasgando a alturas diferentes; Sigried caiu de costas no chão, os restos da água-viva pendendo flácidos e sem vida em suas mãos enquanto o corpo humano convulsionava, litros do líquido azul-escuro escorrendo e sendo absorvidos pela terra.

Ofegando, coberto de sangue e de queimaduras, Sigried se levantou e caminhou até onde Asa estava, vendo-a tentar se sentar devagar. Aparentemente, o álcool estava começando abandonar seus membros, deixando a Zhuran se movimentar.

— Consegue andar? — perguntou ao se aproximar, sentindo as queimaduras arderem, embora com menor intensidade do que estava acostumado. Sabia que, mesmo com sua cura acelerada, demoraria pelo menos três dias para que a pele estivesse intacta de novo; considerando que tinha sido mais atingido do que nunca pelos tentáculos, era bom que seu cérebro quase ignorasse todos os estímulos recebidos, ou duvidava que estivesse de pé.

Asa tentou se levantar, mas caiu sentada no chão novamente, como ele esperava. Ele sabia que ela tinha uma resposta mais intensa à toxina dos Devoradores; seus músculos com certeza estavam dormentes por causa disso. Com um suspiro cansado de desistência, balançou a cabeça em negativa.

Sigried apoiou um dos joelhos no chão, passando um braço por baixo dos joelhos de Asa e o outro nas costas; a Zhuran enlaçou seu pescoço, arrancando-lhe um grunhido de dor ao encostar em uma das queimaduras.

— Desculpe. — ela murmurou enquanto ele se levantava e começava a voltar para o acampamento. Ela ficou em silêncio durante todo o trajeto, provavelmente se xingando pelo que acabara de acontecer.



Asa foi pousada com cuidado no chão, as costas apoiadas no mogno-gigante. A fogueira praticamente se apagara, e ela contemplou Sigried jogar mais alguns galhos no fogo, avivando-o, antes de começar a revirar a sua mochila, tirando a sacola onde a Zhuran guardava seus materiais para curativos — durante o caminho, ela lhe explicara como cuidar de queimaduras de Devoradores. Precisava enviar um presente à sua eu do passado pela ideia genial de fazê-lo.

Embora não lembrasse exatamente de explicar a forma mais veloz de acabar com um Devorador... Ele definitivamente se sairia bem demais contra o ser do Espelho...

As considerações sobre os conhecimentos dele foram expulsas de sua mente ao vê-lo separar algodão e álcool, além do pote onde ela guardava a pomada que agiria contra a toxina extraindo a maior parte dos tecidos e ajudaria nas queimaduras, item básico para qualquer membro da Ordem.

Sabia que primeiro devia limpar os ferimentos com álcool, antes de cobri-los com a pomada e enfaixar. Sabia que deveria repetir o processo a cada duas horas por um dia inteiro.

E sabia também que o álcool, em contato com as queimaduras, doeria quase tanto quanto o encanto preparatório para a Sripati, a Hrinma. A sensação era quase a mesma de ter lascas de metal alojadas entre a pele e os músculos. Assim, quase inconscientemente, ela meio que puxou as pernas em direção ao próprio corpo, dobrando os joelhos em direção ao tronco.

Ela viu o suspiro que Sigried deixou escapar ao ver sua reação, quase como que lamentando o que tinha de fazer. Antes dele pegar seu tornozelo direito e puxá-lo, apoiando-o em seus joelhos, Asa perguntou-se se ele lembrava da sensação do álcool nas queimaduras, ou da dor que aqueles encantos tinham provocado. Não era algo para simplesmente se esquecer, independente do que acontecera sobre ele trocar de forma.

Mas aí, a dor começou, fazendo-a esquecer totalmente esses pensamentos. Sabia que era para seu próprio bem, mas isso não tornava mais fácil de evitar algumas lágrimas que escaparam de seus olhos; além disso, mordeu com tanta força o lábio inferior que sentiu um fio de sangue escorrer por seu queixo.

Num momento que ele afastou o algodão, manchado de um tom de fuligem que somente a toxina de um Devorador podia provocar, ela respirou aliviada, ofegando, deixando a cabeça cair contra o tronco atrás de si.

— Fala. Qualquer coisa, por favor. Vai ajudar pra eu não me concentrar na dor. — resmungou de uma forma que achou patética. Parecia que seus pulmões não conseguiam ar suficiente a cada inspirada.

Achou que ele não ouvira, quando voltou a sentir o algodão embebido em álcool deslizar por sua perna com cuidado. Ela tinha de admitir, ele tinha mão para aquilo: se fosse um ferimento comum, a forma cuidadosa, tranquilizante e quase carinhosa como ele realizava o procedimento seria o suficiente para ela esquecer a dor.

A voz dele surgiu de repente, num tom cuidadoso conforme falava.

— Eu e meu irmão mais velho costumávamos sair pelo portão Oeste de Cilsan, e correr pela Floresta dos Espelhos. — nesse ponto, ela ouviu um pequeno e triste riso. — Nós dois éramos crianças irresponsáveis, que corriam e lutavam com galhos em meio às árvores... Ele sonhava em ser um membro da Guarda Real. Conhecer o Palácio Celeste, ver de perto se os olhos dos Vellum’Frigl eram tão vermelhos quanto as histórias e retratos demonstravam...

— Eram, acredite em mim... — ela conseguiu resmungar, lembrando de quando conhecera o Rei numa das visitas ao irmão. Embasbacada era a palavra para descrever sua reação por descobrir que eles tinham fios de ouro na cabeça e rubis como olhos — metaforicamente falando —, lembrando-a claramente dos seres do Espelho com quem convivia em Riuma. Ouviu outro risinho de Sigried, esse mais alegre. — E você? Sonhava em ser o quê?

— Eu queria ir para Orical, treinar com os Monges. Se para ser Monge ou Mensageiro ou entrar para uma de suas Ordens de lutadores, eu não sei, mas queria aprender a lutar com eles. — outro riso suave e triste.

Nesse ponto, ela sentiu o pé direito ser apoiado no chão: a conversa a distraíra efetivamente, e nem mesmo notara quando ele lambuzou as queimaduras com a pomada e enfaixou-as. Observou-o se preparar para começar o processo na perna esquerda, voltando a falar no mesmo momento que o álcool tocou sua pele.

— Éramos terríveis. Não sei como nenhum ser do Espelho nos matou naquela época, e sempre que chegávamos em casa, mamãe amaldiçoava papai porque todo aquele espírito de aventura vinha dele, afinal, ele era um caçador, como você sabe. Era divertido ver ela ficar histérica por nos ver cobertos de terra e cheios de machucados.

Nesse ponto, até mesmo Asa riu. Lembrava-se da mãe de Sigried, e imaginá-la berrando com duas crianças imundas era realmente uma visão engraçada.

— No dia... — ele deu uma pausa, a voz tremida. O divertimento murchou no peito da Zhuran, imaginando por onde aquilo estava indo. — No dia que fui mordido... Ele já estava há quase uma trezena de cama, enlouquecendo por causa da catapora, e o feiticeiro mais próximo que meus pais puderam pagar, já que a época não estava muito boa nem pros caçadores nem pros ourives, não forneceu uma poção muito boa... — ouviu um suspiro. — Eu queria animá-lo, em minha adoração de irmão mais novo pelo irmão mais velho. — Asa sentiu os lábios se repuxarem com ironia. Conhecia bem esse sentimento. — Então, fugi para a Floresta, atrás de algum presente. Nós dois gostávamos de colecionar pedras, folhas, sementes, garras e qualquer coisa que encontrávamos. Estava procurando algo que ele não tinha... Estava tão determinado que decidi só voltar quando achasse o tal presente, e a noite acabou chegando...

Engoliu em seco. Sabia que a noite que Sigried fora mordido era a mesma que ela estava tentando caçar e capturar um Lobisomem particularmente violento que estava na região, com Mestre Dell e outro Zhuran vigiando o processo; ao final, aquele Lobisomem, o que mordera um menino de onze anos e matara as Luas sabiam quantas pessoas, foi morto sem ela sequer chegar perto: era um espécime muito velho e enlouquecido, incapaz de ser domado, que nenhum deles nunca entendeu como sobrevivera tanto antes de ser morto pela Ordem.

Ela tinha estado à caça do ser, e no caminho encontrara os rastros de Sigried, após a mensagem mental de que o Lobisomem tinha sido abatido. Mas nunca soubera os detalhes de como fora para Sigried.

— Encontrei fragmentos de um casco de jabuti. Eu imaginava que fora uma onça que fizera aquilo, e achei que era o presente perfeito. — ouviu um riso seco. — Tinha sido o Lobisomem. Eu estava bem no meio do território que ele tinha demarcado. Mal vi quando ele apareceu e me atacou. — um suspiro. — Achei que fosse morrer. Mas então ele me largou e saiu correndo. Não sei o que o espantou. — outra pausa, com um tom de resignação. — Senti compulsão por procurar água. Não para beber, mas precisava achar água... Era estranho. E as batidas, como algo tentando invadir minha cabeça... Me levantei, sentindo queimar de fora pra dentro. Não sei como alcancei um lago nas proximidades... Olhei para o meu reflexo e então...

Asa inclinou a cabeça para a frente, vendo que ele amarrava as faixas na perna esquerda, um olhar perdido no azul-gelo das íris.

Estendeu a mão, tocando a que estava marcada com os raios, tomando cuidado para não encostar nas queimaduras. Sigried ergueu as pupilas na direção dela, e ela reconheceu alguns dos sentimentos ali: confusão, dor, medo e necessidade de colo como somente uma criança que acaba de passar por um pesadelo pode ter. Era quase o mesmo olhar de quando ela o encontrara; faltava a loucura.

— Não era mais eu, Asa... A mente, o corpo... Nada mais era eu, nada era meu... — balançou a cabeça, fechando os olhos. — Tenho medo de acordar de repente, e apesar de ser homem por fora, deixar de ser eu de novo... — Ouviu a confissão, e ele levantou as pálpebras de repente quando ela tocou com a ponta dos dedos em sua bochecha. Havia uma espécie de fraqueza ali, e mais uma vez Asa se sentiu horrível por ativar os encantos da coleira.

Sigried precisava de ajuda para lidar com sua nova situação, para não ceder aos seus instintos de híbrido, e manter aquele grilhão definitivamente não ajudaria, apesar do que qualquer outro membro da Ordem diria — talvez fosse efeito de seu ano como noviça e de tudo que ouvira um Lobo de Ferro lhe contar.

Detestou aquilo exposto nos olhos do Lobisomem. Ele nunca demonstrara aquele tipo de fraqueza, de não ter certeza se é capaz de resistir ao seu lado mais sombrio. Não combinava com ele. O Sigried que ela conhecia, homem e besta, era, apesar de tudo, seguro quanto aos seus instintos. Jurou por Átria que faria o que estava ao seu alcance e além para que ele nunca mais duvidasse de si mesmo quanto a não se controlar.



— Hei, calma... Estou aqui agora, com você. Não vou te deixar esquecer quem é. — trincou os dentes quando ouviu as palavras dela, não querendo chorar.

As mesmas palavras que ela dissera quando conseguiu imobilizá-lo com o próprio corpo, se esvaindo em sangue pelo que ele fizera em sua loucura pós-transformação, agarrada a suas costas e prendendo as patas contra ele enquanto esperava ser encontrada pelos outros Zhurans. Até mesmo o tom de voz, baixo, quase maternal, era o mesmo. Tempos depois, ao descobrir que ela nascera em Riuma, tinha certeza que aquela gentileza e carinho demonstrados eram por causa de sua criação. Qualquer outro nascido em um reino que não Szan ou Riuma jamais demonstraria tais sentimentos a um Lobisomem.

Enquanto deixava-a puxá-lo para perto dela, para que ela limpasse as queimaduras — ela nunca se arriscava muito com os Devoradores, mesmo com sua cura acelerada — pediu para as Três Luas que ela nunca se esquecesse daquelas palavras e não o deixasse esquecer quem ele realmente era.


Não admitiria em voz alta, mas tanto quanto ela precisava de ajuda com seus vícios, ele precisava de ajuda com a besta.